“Navegar é preciso”: o Dia do Mar e o conhecimento!

Um oceano azul profundo, vastíssimo. Ou então, de águas verdes semitransparentes, brilhando contra o céu limpo. Ou, ainda, de águas embarradas de um estuário repleto de vida. Águas quentes, águas frias, agitadas ou serenas. Todas essas frases falam do mar, essa grande fronteira que, ao mesmo tempo, divide e une a humanidade. Nesta edição de #EDUCAÇÃOHUMANIZA, vamos celebrar o Dia Mundial do Mar (26 de setembro) de uma forma diferente – mostrando a sua importância para a humanidade a partir de dados curiosos que mostram como as águas e a cultura se misturam. Como diria Fernando Pessoa: navegar é preciso. Então, navegue com a gente!

Os primeiros navegantes

Você já ouviu falar em navegação de cabotagem? Historicamente, em relação ao mar, é a navegação marítima em trechos de costa ou, então, da zona continental para alguma ilha próxima – uma forma de circulação em que o navegante se afasta pouco da terra. Hoje em dia, o termo também identifica viagens que ocorrem dentro de águas jurisdicionais (ou seja, pertencente a um país) contínuas, ainda que de longa distância – como a que liga a Espanha continental às Ilhas Canárias (que são parte da Espanha).

As navegações de cabotagem são bem antigas: os registros mais remotos anotados pelos arqueólogos datam de cerca de 2.000 a.C. na região do Mar Mediterrâneo. Os navegantes? Egípcios e, por volta de 1.500 a.C., fenícios (que habitavam a região do atual Líbano), circulando entre portos e colônias em barcos de madeira.

As navegações oceânicas – muito mais complexas, arriscadas e longas – começaram com os polinésios por volta de 1.000 a.C. Além de excepcionais navegantes, eles eram engenheiros geniais, cortando os oceanos com canoas de casco duplo (que hoje chamamos catamarãs) e canoas simples com estabilizados laterais, as chamadas “batangas”.

Com barcos leves e resistentes – e dominando muitas das “bússolas” naturais, como as estrelas, correntes oceânicas e até a direção das aves marinhas –, ao longo dos séculos eles ocuparam ilhas (como o arquipélago havaiano, a ilha da Páscoa e a Nova Zelândia) em uma área equivalente em tamanho à África! E é bem provável, inclusive, que tenham chegado à América dois ou três séculos antes de Colombo – hipótese apoiada, por exemplo, pela presença de fósseis de plantas de batata-doce, espécie natural da América do Sul, em ilhas da Polinésia.  

Gravura do final do século XVIII mostrando um catamarã – barco de dois cascos – havaiano. Fonte: Wiki.

Correntes oceânicas: as “estradas do mar”

Quando a gente vê aquele “marzão”, aquela massa de água infinita, não se dá conta de que ela abriga correntes oceânicas que, por muito tempo, governaram as navegações. Em certa medida, elas participam até hoje da economia oceânica, uma vez que, mesmo com motor, é possível navegar a favor da corrente e contra a corrente, e isto implica gasto ou economia de combustível. Sem contar que a água transporta uma enormidade de vida, com efeitos sobre o ritmo da pesca, por exemplo.

Ao longo do tempo, seja pela prática da própria navegação ou de estudos científicos (oceanográficos), a humanidade identificou dezenas de correntes oceânicas. Elas se dividem em sistemas que os cientistas chamam de “giros”, que, como o nome indica, promovem grandes movimentos circulares.

Existem cinco grandes “giros oceânicos”: Atlântico Norte, Atlântico Sul, Pacífico Norte, Pacífico Sul e Índico. E, dentro deles, muitas correntes específicas, dentre as quais algumas são especialmente importantes para a navegação e o clima – como as correntes do Golfo, Kuroshio, do Brasil, Humboldt e das Malvinas. Uma curiosidade: no Hemisfério Norte, os giros são em sentido horário; no Hemisfério Sul, em sentido anti-horário (e é claro que isto fez toda a diferença no período das Grandes Navegações, quando os navios eram impulsionados pela soma entre ventos e correntes oceânicas).

Mas, o que faz com que o oceano forme essas “esteiras de transporte”? São muitos os fatores: uma combinação de ventos (que afetam as águas superficiais), a rotação da Terra (que gera o chamado “Efeito Coriolis”), diferenças de temperatura e salinidade (que afetam a densidade das águas) e até os limites físicos impostos pelos continentes. Somado, esse conjunto recebe o nome de circulação termoalina.

Muito bem: o oceano é enorme e nós somos pequenos. Temos o poder de alterar os giros e as correntes oceânicas? A resposta é: sim! Isso porque, em virtude do efeito estufa – com um aumento das temperaturas médias no planeta por conta do aprisionamento do CO2 na atmosfera –, está acontecendo um derretimento acelerado e anormal das geleiras nas regiões polares. Um maior volume de água doce chegando aos oceanos significa mudanças na densidade da água, o que afeta diretamente as trocas aquáticas – com resultados potencialmente sérios. Os cientistas temem, por exemplo, que a Corrente do Golfo (Gulf Stream), que leva calor à Europa Ocidental, colapse justamente por isso. Nesse caso, cidades europeias, que não sofrem com invernos tão rigorosos, possam registrar temperaturas muito mais baixas no inverno. Apenas para se ter uma ideia: Nova Iorque e Madrid se situam aproximadamente na mesma latitude; no entanto, os invernos nova-iorquinos são muito mais rigorosos que os madrilenos, o que tem tudo a ver com o transporte de calor oeste-leste propiciado pela Corrente do Golfo.

Os oceanos e a cultura: quem conhece e quem não conhece

Hoje em dia, é difícil imaginar que haja pessoas que não conheçam os oceanos. No entanto, basta trazer um exemplo concreto para descobrir que há pessoas que, de fato, sequer suspeitam da existência dos oceanos. Pense, por exemplo, nos cerca de 115 grupos indígenas isolados e não contatados que vivem em outro “oceano”, o “oceano verde” de floresta da Amazônia brasileira. A maioria absoluta deles está em porções muito interiores do território, afastadas do litoral. Eles conhecem, é claro, os rios amazônicos – alguns deles, muito largos –, mas não o mar, ao menos diretamente.

A pergunta é: se eles nunca viram o mar, podem ter criado palavras que o identifiquem? Podem situá-lo dentro de um horizonte de cultura com mitos e narrativas? A resposta é: muito provavelmente, não! Sem ter visto o mar diretamente, é difícil “transportá-lo para dentro” da mente e da cultura. Ah, e se eles efetivamente dispõem de palavras, isto pode significar que, um dia, viveram em lugares perto do mar!

Essa percepção ajudou os linguistas e os arqueólogos a detectarem e documentar as grandes migrações humanas, em especial em tempos mais recuados da História e da pré-história.

Um exemplo, mas que ainda segue em grande parte envolto em mistério, é o dos povos e línguas que formaram a civilização grega, marcada pelo encontro (nem sempre pacífico) de povos “do mar” – a civilização minoica, que vivia nas ilhas gregas e tinha grande conhecimento de navegação – e “do interior”, no caso, grupos indo-europeus que se deslocaram do sul da Rússia para a península balcânica entre 2.000 e 1.600 a.C. Ainda que não tenham decifrado parte dos sistemas de escrita desses antigos povos, os pesquisadores supõem fortemente que os termos ligados ao mar – e também as divindades e os mitos – vêm, via de regra, da “herança minoica”.

Conclusão: nós somos o mar!

Neste artigo, trouxemos algumas curiosidades sobre o mar para celebrar um dia mundial que abarca, também, os oceanos. Mar que se liga de muitas maneiras à nossa vida: nos pescados e frutos do mar que consumimos, nas compras que fazemos e recebemos de longe, na ideia que fazemos da praia como um lugar de descanso e até na arte ligada às imagens do mar, em músicas como as de Dorival Caymmi e poemas de Fernando Pessoa. Mar que somos nós e que, como alertam os cientistas, também são de nossa responsabilidade. Refletir a respeito, saber mais, conhecer, é essencial. Para os próprios mares e para a vida!