“Então, vamos ao museu?” Novidades e desafios dos museus do nosso tempo

Visitação ao ônibus espacial Discovery no Smithsonian Institution’s National Air and Space Museum. Foto: Getty Images.

Responda rápido: qual foi a última vez que você esteve em um museu? É bem possível que sua resposta seja “foi há bem pouco tempo”. E essa é uma excelente notícia!

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia da COVID-19, as pessoas voltaram a frequentar os museus. No Brasil, segundo dados do Google Trends, as buscas cresceram 22% no ano de 2024 (o mais recente da pesquisa), e a média anual de visitação já supera os 30 milhões de pessoas. E os próprios museus estão na “boca do povo”: MASP, MON, Museu do Amanhã, Museu da Língua Portuguesa, Museu Histórico Nacional, Museu Catavento, Museu Imperial…

Além disso, dados globais mostram que, a cada ano, os cem maiores museus do mundo recebem cerca de 175 milhões de visitantes – e este número está crescendo.

Os museus oferecem um caminho lúdico e instigante de conexão com o conhecimento. Foto: Getty Images.

Mas, por que o interesse das pessoas pelos museus aumentou?

Porque essas instituições se modernizaram, trazendo temas instigantes e oferecendo experiências que vão muito além da imagem “clássica” de peças na vitrine ou de depósitos de patrimônio.

Os museus, enfim, estão mais vivos do que nunca. Valorizando, preservando, compartilhando e construindo História, Ciência, Arte e Conhecimento. Mas há, é claro, desafios que também devem ser conhecidos.

Nesta edição da série #EducaçãoHumaniza – em homenagem ao Dia Internacional dos Museus, que será celebrado no próximo dia 18 de maio – vamos falar sobre a origem, a evolução e os desafios dos museus.

A visita já vai começar – venha com a gente!

Ciência lúdica: em um museu de ciência é possível interagir com artefatos como o Gerador de Van de Graaff, que acumula eletricidade estática e literalmente “arrepia os cabelos”. Foto: Getty Images.

A coleção do rei

Para muita gente, a primeira ideia que vem à mente quando se fala em “museu” é a de uma coleção de objetos que contam coisas: pinturas, estátuas, múmias, fósseis, moedas, animais empalhados, armaduras, peças religiosas, máquinas e mais. Essa imagem faz todo sentido.

Porque os museus surgiram, de fato, como “coleções para mostrar e contar”. E nasceram há muito tempo, na Antiguidade, em culturas como a mesopotâmica, a egípcia, a grega e a romana.

Detalhe de relevo que mostra as tropas do imperador romano Tito desfilando com tesouros saqueados de Jerusalém. Peças como essas formavam as primeiras coleções. Fonte: Wikipedia.

Os poderosos de então – comandantes militares, reis, imperadores – reuniam grandes botins e queriam compartilhá-los com seus semelhantes, mostrando suas conquistas, o alcance de suas jornadas e até o “estranho e maravilhoso” que ficava para além das fronteiras do próprio reino. Queriam “apresentar o mundo”, demonstrando riqueza e, principalmente, poder.

Essa forma de “ser museu”, aliás, perdurou por muito tempo. No período colonial, impérios como o Espanhol, Francês, Russo ou Britânico faziam exatamente o mesmo. Montavam grandes coleções de peças retiradas de seus domínios e de regiões invadidas, expondo-as, agora, para os pares e, agora, para o povo.

Situado em São Petersburgo, Rússia, o Hermitage possui uma das maiores coleções de arte e etnologia de todo o planeta. Foto: Getty Images.

Visitando o “Gabinete de Curiosidades”

Ao ler os parágrafos acima, você provavelmente ficou com a impressão de que os museus, no início, tinham como grande finalidade mostrar uma visão de mundo ligada a poder e, também, a uma ideia de “nós e eles”, de povos mais civilizados e de povos “exóticos”. E é isso mesmo!

O colecionar, então, era visto como um traço de superioridade sobre aquelas culturas que não colecionavam. Some-se a isso, em tempos mais modernos, a Revolução Científica (do século XVI, com grande expansão nos séculos XVIII e XIX), que gerou um enorme movimento de descoberta, catalogação e publicidade dos achados – animais, insetos, plantas, fósseis, antigos textos, peças arqueológicas etc. Vivia-se, então, entre a realidade do “Gabinete de Curiosidades” e a das primeiras tentativas de catalogar, organizar e mostrar descobertas científicas.

Conchas, pintura, estátuas: detalhe de um “Gabinete de Curiosidades” pintado em 1636 pelo pintor flamengo Frans Francken. Fonte: Wikipedia.

Os primeiros museus modernos

O primeiro museu moderno, aquele que inaugura o que conhecemos como tal, foi o Ashmolean Museum, fundado em 1683 na cidade inglesa de Oxford. Elias Ashmole herdou e assumiu os direitos sobre uma enorme coleção dos naturalistas John Tradescant (pai e filho) e a doou à Universidade de Oxford.

A instituição construiu um edifício para abrigar esse acervo, dando origem ao Ashmolean. Atualmente, o museu segue sendo um dos principais do mundo, com um acervo de mais de um milhão de peças, abrangendo do Antigo Egito ao Japão, passando por obras de Michelangelo, moedas, máscaras funerárias e muito mais.

Ashmolean Museum, em Oxford: o primeiro museu “moderno. Foto: Getty Images.

Outro museu (na verdade, um conjunto de museus) pioneiro e extremamente importante é o do Vaticano, que a partir de meados do século XVIII começou a organizar seu acervo em galerias e abrir estes espaços à visitação. O acervo dos Museus Vaticanos é um verdadeiro tesouro – são 70 mil peças de arte e arqueologia distribuídas em nada menos do que 1.400 salas na própria cidade-Estado do Vaticano!

O terceiro dos museus “fundantes” da Era Moderna é o do Louvre, que passou de coleção real de arte a museu nacional francês em 1793, na esteira da Revolução Francesa. Com 38 mil peças – e um acervo que cresceu muito ao longo da Era Napoleônica e de todo o século XIX –, o Louvre é, atualmente, o maior museu de arte do mundo! Em tempo: é, também, o mais visitado, com cerca de 10 milhões de visitantes por ano (uma média de 27 mil visitantes por dia!).

Outros museus que não podem ficar de fora desta lista de “pioneiros incríveis” são o Hermitage, inaugurado em 1764 na cidade russa de São Petersburgo, o Museu Britânico (fundado em 1753), de Londres, e o Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque (1870). Há, é claro, muitos outros museus magníficos (que vamos listar no final deste artigo), mas os citados são os pioneiros.

O “pulo do gato” dos museus

O século XX e as primeiras décadas do século XXI trouxeram grandes novidades. Estamos falando do cinema, da tevê, do rádio, da computação e de avanços extraordinários nas técnicas da indústria gráfica. Todas essas novidades, todas essas tecnologias, refluíram para os museus a partir do momento em que eles mudaram de paradigma.

E que mudança foi essa? Eles deixaram apenas de “mostrar acervos” de forma acrítica e passaram a envolver os visitantes em experiências mais profundas, comunicacionais e sensoriais. O museu, enfim, deixou de ser o “Gabinete de Curiosidades” e passou a oferecer uma experiência viva, que comunica o acervo e vai além.

As coleções dos museus colocam as pessoas em contato com elementos materiais da História. Foto: Getty Images.

Essa mudança se conecta a uma transformação na museologia, que, especialmente a partir dos anos 1960 e 1970, caminhou para oferecer algo diferente e encantador. Mudanças na arquitetura dos prédios, exposições que caminham para fora do espaço museológico, temas e acervos voltados a públicos específicos como as crianças, oferta de experiências científicas (no caso dos museus de ciência e tecnologia) e interações digitais “romperam a vitrine” do passado e colocaram os acervos mais perto das pessoas. Essas mudanças, que efetivamente promoveram um retorno das pessoas aos museus, também foram importantes para o financiamento das próprias instituições – todas elas têm gastos importantes com a conservação, a pesquisa e a expansão dos acervos.

Museus que se mexem!

Muito bem: você quer exemplos de museus modernos e altamente interativos? Vamos a eles! O paulistano Museu da Língua Portuguesa, com suas muitas experiências interativas dentro do nosso idioma, é um deles. O Museu de História Natural de Nova York (AMNH), com seu teatro imersivo 360° e aplicativos de realidade aumentada que “dão vida” a dinossauros extintos, é outro. No campo da tecnologia, merecem destaque o Deutsches Museum, de Munique (Alemanha) – o mais antigo museu do gênero no mundo, fundado em 1903 –, e o Seoul Robot & AI Museum (RAIM), inaugurado em 2024 – o primeiro museu do mundo dedicado à robótica e à IA.

Nosso Museu Nacional, atualmente em fase final de reconstrução – fundado em 1818, ele foi destruído por um incêndio devastador em 2018 –, também promete estar entre os mais importantes e interativos do mundo. E por quê? Porque, entre seus desafios, estão atrair público e, especialmente, recuperar e recontar a história das peças destruídas – algo que só será possível pela soma entre pesquisa de alta qualidade e entrega digital precisa.

E os desafios?

Mas, como fazer isso? A resposta a esta pergunta pode representar um novo salto para os museus. Há, porém, desafios importantes. O primeiro: levar essa transformação para um número muito maior de instituições. Para além dos grandes museus, afinal, há dezenas de milhares de outros que, muitas vezes, ainda reproduzem o modelo “Gabinete de Curiosidades”. Apenas para se ter uma ideia: no Brasil há 4.024 museus cadastrados no Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) – muitos, em especial os das cidades menores, ainda não “deram o salto” de qualidade.

Outro desafio, monumental, diz respeito ao repensar dos governos e das gestões dos museus em relação aos seus acervos. Na medida em que muitas coleções foram construídas no período colonial – em muitos casos, a partir de saques, confiscos e compras ilegais –, há uma questão séria que envolve a titularidade dos acervos e a necessidade de repatriação de peças.

Apenas para ficar em alguns exemplos, entre os acervos “problemáticos” estão coleções associadas às religiões e religiosidades de povos originários (como objetos rituais e até restos humanos de grupos indígenas americanos), peças saqueadas em guerras e relíquias arqueológicas como os bronzes do Benin, África (hoje, em vários museus), os frisos do Parthenon, em Atenas (atualmente no Museu Britânico), o busto da rainha egípcia Nefertiti (atualmente no Neues Museum, em Berlim) e a Pedra de Rosetta (peça-chave na decifração dos hieróglifos egípcios, hoje no Museu Britânico).

Mas, não seria simples apenas repatriá-los, devolvendo-os às sociedades de origem? Sim e não. Se, por um lado, já há movimentos importantes nesse sentido – como a entrega, ao Brasil, de mantos tupinambás em penas de guará (do século XVII) que estavam no Museu Nacional da Dinamarca –, por outro há questões econômicas envolvidas. Peças como o busto de Nefertiti, por exemplo, são “estrelas” que atraem milhares de pessoas do museu. Sem contar o risco, que não deve ser desprezado, de as peças retornarem a lugares sem capacidade de conservar e mostrar os acervos. Algo que, em tese, poderia ser resolvido por uma expansão dos museus e da cultura museológica, o que demanda investimentos e interesse político.

Conclusão

Neste artigo, pudemos perceber como os museus evoluíram. E evoluíram, em essência, porque refletem a evolução das sociedades e da tecnologia. Esse processo, porém, também marca conflitos que cresceram nas últimas décadas. O maior deles, o do respeito às culturas do mundo e à necessidade de promoção da interculturalidade nas relações entre os povos. Outro desafio é o da democratização desse novo modelo, que deve alcançar os milhares de museus do mundo e não apenas as grandes instituições.  

Se conseguirmos dar esse salto, os museus – esses espaços vivos de memória e descoberta – terão, de fato, encontrado o caminho para o futuro. Um passo importante nesse sentido é o interesse das pessoas pelos seus museus. Assim, deixamos o convite: vá aos museus! Prestigie o museu da sua cidade!

O Museu do Palácio Nacional, em Taipei, possui uma das maiores coleções de arte e História da China de todo o mundo. Foto: Getty Images.

Museus para conhecer:

O mundo possui milhares de museus, e muitos deles são simplesmente sensacionais. Abaixo, listamos apenas alguns deles que podem ser conhecidos pela internet:

Hermitage Museum, São Petersburgo

Instituto Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais

Metropolitan Museum of Art (MET), Nova Iorque

Museo Nacional del Prado, Madrid

Museu de Arte de São Paulo (MASP), São Paulo

Museu Britânico, Londres

Museu da Acrópole, Atenas

Museu de História Natural (AMNH), Nova Iorque

Museu do Louvre, Paris

Museu Imperial, Petrópolis, Rio de Janeiro

Museu Nacional, Rio de Janeiro

Museu Oscar Niemeyer (MON), Curitiba

Museus do Vaticano, Roma

National Palace Museum, Taipei, Taiwan

New York Hall of Science (NYSCI), Nova Iorque

Novo Museu Egípcio, Cairo

Smithsonian National Air and Space Museum, Washington

Tate Modern, Londres

A importância das formações pedagógicas para a qualidade da educação nas redes municipais

Formação de professores em Chapecó: o objetivo das formações é oferecer uma experiência integral, que se reflita nas ações docentes em sala de aula. Foto: Editora Opet.

As formações pedagógicas desempenham um papel central nas parcerias da Editora Opet com os municípios. Por meio delas, no diálogo e na construção conjunta do conhecimento, os professores conseguem acessar e desenvolver os melhores usos dos materiais e recursos educacionais. E os gestores, avançar no fortalecimento da educação. Com intencionalidade, olhar crítico e troca de experiências. O resultado? O fortalecimento da aprendizagem e o desenvolvimento integral das crianças e dos estudantes!

Nas últimas semanas, os assessores pedagógicos da Editora estiveram em municípios do Paraná, Ceará, Santa Catarina, Mato Grosso e Minas Gerais para mais um ciclo de formação continuada. Esses encontros fortalecem a parceria com as redes municipais, promovendo reflexão qualificada sobre práticas pedagógicas e o uso assertivo dos materiais e soluções Opet, sempre com foco na potencialização dos resultados educacionais. A seguir, destacamos o trabalho desenvolvido em três redes municipais.

🫶 Astorga: encontro com 400 profissionais de Educação

Em Astorga, município parceiro Opet na região norte do Paraná, a formação – com o atendimento do supervisor regional Fernando Corrêa – aconteceu nos dias 13 e 14 e envolveu nada menos do que 400 profissionais de Educação, entre professores e gestores, além das famílias dos estudantes – que participaram de um Encontro com Familiares (EFAM).

Entre os atendimentos, uma palestra com a pedagoga e professora Gabriela Menezes sobre o tema “Educação inclusiva na prática: estratégias possíveis para o cotidiano pedagógico com estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”.

Educadores na palestra “Educação inclusiva na prática: estratégias possíveis para o cotidiano pedagógico com estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, com a professora Gabriela Menezes. Foto: Editora Opet.

“Foi excelente! A palestrante foi perfeita em sua apresentação e o conteúdo foi exatamente o que esperávamos. Os professores elogiaram muito”, diz a secretária municipal de Educação de Astorga, Graziella Cavallari. Em relação ao trabalho desenvolvido pela Opet no município, Graziella destaca a presteza e a qualidade no atendimento pelos assessores e supervisores. “Temos uma equipe sempre muito próxima e muito presente para atender as nossas demandas”, sintetiza.

🤝 Aquiraz: gestão escolar para a equidade

O município mais antigo do Ceará – e, também, sua primeira capital –, Aquiraz é um parceiro estratégico da Editora Opet. Lá, o trabalho também foi realizado nos dias 13 e 14, envolvendo 85 professores dos primeiros e segundos anos do Ensino Fundamental, os 56 diretores das escolas do município e os superintendentes da secretaria de Educação.

Professores de Aquiraz durante a formação: o foco, aqui, foi na educação socioemocional. Foto: Editora Opet.

No caso dos diretores, como explica o supervisor regional Glaylson Rodrigues – responsável, na Editora, pelo atendimento –, foi organizado um fórum especial com o tema “Gestão escolar para a equidade: estratégias para a redução das desigualdades educacionais”, apresentado pela coordenadora pedagógica Rúbia Cristina da Costa, da Editora Opet. O secretário pedagógico de Aquiraz, Pedro Lioba, se disse entusiasmado com o trabalho desenvolvido com os gestores. “Só posso dizer que a formação impactou positivamente na rede de ensino.”

📈 Chapecó: parceria histórica pela educação
Localizado no Oeste de Santa Catarina, Chapecó é parceiro da Editora Opet há vários anos, com foco na aprendizagem e no desenvolvimento integral das crianças e dos estudantes.
Na rede municipal, o primeiro ciclo formativo do ano começou no dia 20 de março, com os professores. A formação envolveu nada menos do que 700 educadores de todos os componentes da Educação Básica e da Educação Especial. Os professores de Arte, Ciências, Geografia, História, Língua Inglesa, Língua Portuguesa, Matemática, Educação Física e Educação Especial puderam se aprofundar nas possibilidades de uso dos materiais didáticos e dos recursos educacionais digitais.

Iniciado em março, ciclo formativo em Chapecó envolveu mais de 700 professores e 360 gestores e integrantes das equipes da SME. Foto: Editora Opet.

No período de 14 a 17 de abril foi a vez dos cerca de 360 gestores e integrantes da equipe técnica da secretaria de Educação. O foco foi em um tema que ganha cada vez mais importância no contexto educacional: a Inteligência Emocional, mas voltada à gestão de pessoas e situações na escola.

Por fim – mas não menos importante –, no último dia 23 a formação teve como público os professores da Educação Infantil que atuam com a Língua Inglesa. Essa formação foi conduzida pela professora Vera Rauta, uma grande especialista. O tema – “A Língua Inglesa na Educação Infantil: quando a língua adicional dialoga com a infância” – buscou aproximar o idioma da vivência das crianças.
“Chapecó se destaca pelo alto nível de organização e engajamento, desde o planejamento pela equipe da SEDUC até a participação dos educadores”, avalia Marina Kalinowski, supervisora regional da Editora responsável pelo atendimento. “A dedicação de todos faz a diferença no dia a dia das escolas e contribui para fortalecer os resultados da rede municipal de ensino.”

IA Indica: apoio aos educadores, força para os planos de intervenção

Ferramenta foi testada por professores parceiros que validaram seu funcionamento. Essa é uma etapa fundamental para a qualidade da interação educador-ferramenta – e para os resultados do processo.

Novidade no ar: as equipes de Tecnologia Educacional (TE) e do Programa Indica, da Editora Opet, estão finalizando o desenvolvimento de uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) que em breve vai tornar os planos de intervenção dos municípios e escolas privadas mais precisos e eficientes.

“Os dados das avaliações permitem construir planos de intervenção”, explica Silneia Chiquetto, coordenadora do Programa Indica. “Esses planos, porém, devem ser precisos e realizáveis. E é justamente aí que entra a IA: como um facilitador de alto nível dessa construção.”

Uma IA a serviço da melhoria da aprendizagem

O coordenador de TE da Editora, Mikhael Gusso, explica que a IA do Indica constrói os recursos a partir da inserção de informações das avaliações (inputs) pelos professores e gestores e, também, de dados oriundos de fontes e bibliotecas relacionadas à educação. Ela também é capaz de aprender com a própria experiência e com os dados acumulados no trabalho.

Os dados das avaliações são transformados em prompts de IA pelos professores.

Entregas sob medida para recuperar a aprendizagem

“Um professor pode, por exemplo, criar um prompt para a geração de conteúdos de um plano de intervenção a partir das habilidades da BNCC (ou, ainda, dos descritores do SAEB e matriz do CNCA) já cadastradas na ferramenta de IA da Plataforma Indica”, explica Mikhael. “Nesse formato, a IA se baseia nas habilidades e/ou descritores selecionados e gera conteúdos específicos para a intervenção.”

Outra forma é selecionar materiais da biblioteca digital da Opet ou externos para que, a partir deles, a IA gere os conteúdos. A ferramenta, aliás, também está habilitada a desenvolver recursos por conta própria, baseada em referências selecionadas do cenário educacional.

A IA é um axuliar poderoso na construção de conteúdos específicos – como exercícios e trilhas de aprendizagem – para a ativação dos planos de intervenção

E que conteúdos são esses?

Os próprios planos de intervenção, que, como explica Silneia, podem trabalhar por estudante, turma, escola e rede de ensino, além de conteúdos específicos, trilhas de aprendizagem, exercícios, quizzes e referências. Com intencionalidade pedagógica máxima.

O plano de intervenção na palma da mão

No modo digital, via Plataforma Indica ou Plataforma Inspira (com o e-mail @opeteducation e a senha cadastrados pela rede de ensino) ou no formato impresso. A escolha é feita pelo professor.

O acesso, reforça Silneia, é intuitivo. Basta acessar a plataforma e clicar no ícone correspondente.

IA que aprende com as pessoas

Mas, quando o recurso de IA estará disponível? Ele está na etapa final de ajustes e deve ser apresentado em breve. Recentemente, foi testado com um parceiro de valor do Programa Indica, o município mineiro de Varginha.

“E ele foi muito bem aceito pelos professores e gestores”, conta Mikhael. “Isso porque, em primeiro lugar, existe uma sinergia da educação em relação à tecnologia. Além disso, os educadores estão buscando ferramentas seguras e intuitivas como a nossa. Como ela foi criada para o ambiente educacional e dentro dele, dispensa prompts sofisticados ou conhecimentos mais específicos pelos usuários.”

Ao testar a ferramenta, os educadores de Varginha ofereceram informações importantes para que ela chegue ainda mais “redonda” a todos os usuários finais. Um processo, enfim, de aprimoramento da máquina a partir do humano.

“Com a IA do Indica, as redes de ensino terão um recurso poderoso para seus planos de intervenção. E o melhor: uma ferramenta que aprende continuamente, e que vai entregar materiais e trilhas de aprendizagem individualizados. Para cada rede, o melhor plano de intervenção”, avalia Silneia.

Mikhael destaca a integração entre as pessoas e a ferramenta, lembrando que a IA não substitui nunca o profissional. “Todos os produtos gerados, evidentemente, devem ser verificados e validados pelos educadores. É isso – a soma entre o conhecimento humano e a capacidade que a máquina tem de gerar soluções – que transforma a IA em um recurso excepcional.”

Em breve, a IA do Indica estará disponível para apoiar professores e gestores em todo o Brasil. Acompanhe nossas próximas publicações e descubra como levar esse recurso para sua rede de ensino.

Ano letivo começa com formações pedagógicas em diferentes regiões do país!

Com o início do ano letivo nas redes de ensino de todo o Brasil, a equipe pedagógica da Editora Opet intensifica sua atuação junto aos municípios parceiros. É tempo de “pé na estrada”, com palestras e formações pedagógicas que marcam o início do trabalho formativo de 2026 – um trabalho que segue pelas próximas semanas!

📍 No dia 19 de janeiro, com o apoio da Editora Opet, os educadores de Cocalinho (MT) participaram da palestra do psicanalista João Hilton, realizada durante a abertura da Semana Pedagógica do município. Com o tema “Comunicação Assertiva e Gerenciamento Emocional”, o encontro promoveu momentos de escuta, diálogo e reflexão sobre as relações no contexto educacional.

Em Cocalinho, a palestra foi com o psicanalista João Hilton. Foto: SME

📍Já no dia 26, foi a vez dos professores e gestores de Aquiraz (CE) receberem a coordenadora pedagógica da Editora Opet, Rúbia Cristina da Costa. Em sua fala, ela abordou o tema “Equidade, inovação e responsabilidade social na educação: desafios atuais para a promoção de aprendizagens significativas”, destacando o papel da escola na construção de práticas pedagógicas mais justas e alinhadas às demandas contemporâneas.

A coordenadora Rúbia Cristina na palestra e com a equipe da SME de Aquiraz.

📍No dia 28, durante a abertura da Semana Pedagógica de Varginha (MG), também com o apoio da Editora, os educadores participaram da palestra “Antes de tudo, um coração”, ministrada pelo cantor Rafinha Acústico – ele trouxe uma abordagem sensível e inspiradora sobre o cuidado com as emoções no ambiente escolar.

Em Varginha, os participantes da semana pedagógica participaram de uma palestra cultural com Rafinha Acústico. Foto: Divulgação.

📍As formações pedagógicas seguem nos dias 29 e 30 de janeiro nos municípios de Varginha e Andradas (MG), Figueirópolis do Oeste (MT) e São Sebastião da Amoreira (PR). Para Fernanda Gonçalves, coordenadora pedagógica regional da Editora Opet, esse momento inicial é fundamental para o desenvolvimento do trabalho ao longo do ano.

“Esse momento formativo inicial é estratégico para o trabalho de todo o ano. Nossa equipe planejou e se preparou muito para o trabalho com professores e gestores. Agora, colocamos a parceria em prática”, destaca.

E essa é apenas a primeira etapa da jornada formativa de 2026. Nas próximas semanas e ao longo de todo o ano, a Editora Opet seguirá acompanhando e apoiando seus municípios parceiros, reafirmando o compromisso com a formação docente e a qualidade da educação.

RO: escolas parceiras Opet são destaque em sistema estadual de avaliação da Educação

Escolas de Corumbiara e Cerejeiras se destacaram no SAERO, sistema de avaliação educacional do Estado

Resultados do SAERO 2024 foram divulgados em seminário promovido pelo governo de Rondônia. Fonte: SEDUC-RO.

Três escolas das redes municipais de ensino de Corumbiara e Cerejeiras, municípios parceiros da Editora Opet em Rondônia, foram destaque no Sistema de Avaliação Educacional de Rondônia – SAERO.

Em Corumbiara, a Escola Municipal de Ensino Infantil e Ensino Fundamental (EMEIEF) Domingos Pereira Rocha (rural) e a Escola Mundo Mágico (Ensino Fundamental do 1º ao 5º ano – urbana) apareceram entre as 30 melhores do Estado de Rondônia na faixa avaliativa do Ensino Fundamental – Anos Iniciais. No caso de Cerejeiras, foi destaque a EMEIEF Professora Maria Helena Barreiros, 2ª colocada no quesito desempenho dos estudantes.

O SAERO

Criado pelo governo do Estado de Rondônia em 2012 para auxiliar no planejamento e desenvolvimento da educação pública, o SAERO é realizado em parceria com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (CAEd/UFJF).

A edição que reconheceu os municípios parceiros da Editora Opet foi realizada entre os dias 11 e 22 de novembro de 2024 e abrangeu 123 mil estudantes de todas as escolas públicas estaduais e municipais de Rondônia. A avaliação contemplou os estudantes do 2º, 3º, 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e do 2º ano do Ensino Médio. Os resultados da avaliação foram divulgados no último dia 11 em Porto Velho, durante o Seminário de Resultados Saero 2024: Painel de Indicadores e Perspectivas.

Ao todo, 96 escolas públicas foram homenageadas pelos resultados, com premiações financiadas com recursos próprios do Estado.

Trabalho permanente

A secretária municipal de Educação de Corumbiara, Fátima Notaro, destaca o trabalho desenvolvido em conjunto pelas escolas que se destacaram, pela rede municipal de ensino e pelos gestores municipais.

“Nossos resultados são a soma de muitas mãos que trabalham incansavelmente pela melhoria do ensino. Os professores são realmente comprometidos com as nossas crianças”, avalia. Ela destaca a importância dos esforços municipais de reforço estruturado e recomposição da aprendizagem no pós-pandemia, que vêm mostrando resultados importantes.

“Além disso, contamos com os materiais da Editora Opet em todos os seguimentos da Educação, da creche ao 5º ano do Ensino Fundamental”, observa.

“Quando falamos em Opet, falamos de um material riquíssimo em conteúdos, que trabalha na mesma linha de que necessitamos para complementar nossa aprendizagem. É um material de ponta! Também contamos com um pessoal especializado da Editora, dando total apoio, presencial e online, ao município.”

O diretor da EMEIEF Professor Domingos Pereira da Rocha, professor Reinaldo Nascimento da Silva, acredita que o bom resultado de sua instituição esteja relacionado a uma série de fatores, começando pelo engajamento dos professores e da coordenação, e também pelo reforço e recomposição da aprendizagem. Ele acredita que os materiais da Editora Opet utilizados na Educação Infantil podem ter participado do resultado.

“Sabemos que o trabalho nessa etapa, quando bem feito e estruturado, tem reflexos sobre o Ensino Fundamental. Ele é a base de tudo. Se a base é bem-feita, é possível estruturar melhor o trabalho que vem a seguir”, observa.

A diretora Claudinéia Vicente de Lima Martins, da EMEF Mundo Mágico, diz que o resultado do SAERO foi emocionante. “Esse resultado representa o esforço coletivo, o compromisso diário e a dedicação de toda a comunidade escolar”, observa. Ela atribui o sucesso da escola na aprendizagem a um conjunto de elementos como a recomposição da aprendizagem, o reforço escolar estruturado, o atendimento educacional especializado, o acompanhamento psicopedagógico e psicológico, bem como práticas pedagógicas que respeitam o ritmo de cada estudante. “Além disso, o engajamento dos professores é notável. Eles atuam verdadeiramente como agentes de transformação!”, destaca.

A diretora Claudinéia Martins com o prefeito de Corumbiara, Leandro Vieira (à direita na foto), e sua equipe durante a premiação das escolas de destaque no SAERO. Fonte: Divulgação.

Para a diretora, os materiais e formações pedagógicas da Editora Opet também desempenham um papel importante. “Eles têm contribuído significativamente para o fortalecimento do processo de ensino-aprendizagem na nossa escola. Os recursos oferecidos são alinhados às diretrizes curriculares e favorecem uma prática pedagógica mais intencional, contextualizada e efetiva.”

Fortalecimento

Formação pedagógica de professores da rede municipal de ensino de Corumbiara. Fonte: Editora Opet.

“Os resultados das escolas parceiras da Editora em Rondônia mostram que existe um processo estruturado de fortalecimento da aprendizagem”, avalia Cliciane Élen Augusto, gerente pedagógica da Editora Opet.

“E isso é significativo, especialmente, porque não são resultados pontuais. A partir deles é possível avançar ainda mais, recompondo as aprendizagens que ainda estiverem defasadas e ir além, construindo uma aprendizagem adequada nas próximas etapas da educação.” Nesse processo, Corumbiara, Cerejeiras e todos os municípios parceiros contam com os recursos e o apoio da Editora Opet.

#FuturoPresente: oceanos em risco, ciência em ação!

Mergulhadora mede diâmetro de coral marinho. Foto: Getty Images.

Uma linha perfeita, coroada no horizonte pelo sol que começa a nascer. Uma vasta curva que toma conta de quase todo o planeta e faz com que, do espaço, a Terra seja vista como o que ela é: um planeta azul. A causa? Os oceanos. Que nos separam, conectam e desafiam; que nos alimentam, fascinam e assustam. E que, infelizmente, estão em risco, ao mesmo tempo em que seguem revelando seus segredos para a ciência – e continuam guardando muitos mistérios!

Nesta edição de #FuturoPresente, vamos conhecer algumas das pesquisas mais recentes no campo dos oceanos! Navegue conosco.

🌊 “Um continente oceânico”

Vista do espaço, a Terra é uma “bola” azul com manchas amarronzadas, esverdeadas e brancas, das terras, geleiras e bancos de nuvens. A predominância de cor está relacionada a algo que você, mesmo morando longe da praia, conhece: os oceanos, que ocupam cerca de 71% da superfície do planeta. Uma superfície enorme, mas proporcionalmente muito fina – quase uma “película”.

Os oceanos cobrem 70% da superfície terrestre. Foto: Getty Images.

Imagine que, em média, a crosta oceânica possui 7 km de espessura e que o diâmetro médio do nosso planeta é de 12.742 km. Ou seja: a crosta oceânica equivale a apenas 0,055% do diâmetro total da Terra; se o planeta “medisse” um metro, a crosta oceânica teria 0,5 milímetro! Nesse minúsculo intervalo, porém, reside a chave para o clima do planeta e para algo que é muito raro em termos siderais: a vida.

Mais do que apenas mostrar proporções – os limites, a grandeza e até a fragilidade dos oceanos –, esses números sinalizam que a espécie humana se aproximou e passou a desvendá-los. E isso tem nome: cultura.

🌊 O oceano e a cultura

É difícil estabelecer quando começou a relação entre as pessoas e os oceanos. Afinal, de uma forma ou outra, a vida se liga desde sempre aos oceanos. Fiquemos, então, apenas nas relações culturais, que são tão antigas quanto o assentamento de seres humanos próximo a áreas marítimas, há cerca de 16 mil anos. É possível, inclusive, que essa datação recue ainda mais, em especial porque, hoje, muitos dos antigos sítios estão submersos por conta de mudanças naturais no relevo.

Representação de navio fenício com duas filas de remos. No mar, estão representados peixes e crustáceos. Foto: Wikimedia Commons.

Essa proximidade, é claro, gerou religiosidade, mitos, tecnologia, conhecimentos associados à nutrição e muito mais. Uma relação que se aprofundou com o início da navegação oceânica, há cerca de 5 mil anos pelos egípcios e também pelos polinésios, malaio-indonésios e outros povos do sudeste asiático. Os mares, que até então separavam porções de terra, passaram a uni-las.

Desde então, fomos acumulando informações sobre os oceanos, em um processo que se acelerou com a Revolução Científica, a partir do século XVIII. Registramos e descrevemos espécies marítimas, conhecemos as correntes e seus regimes, descobrimos a relação entre os oceanos e o clima, cartografamos o fundo dos mares.

Mesmo assim, esse azul todo segue revelando novidades, inclusive relativas à sua própria sobrevivência em um tempo de enorme pressão causada pela própria humanidade.

🌊 As espécies que habitam o grande azul

Um dia fantástico no mar: o pescador puxa a rede e ela vem pesada de peixes e crustáceos. Pequenos, grandes, coloridos, cinzentos, lisos e espinhosos. Um espetáculo de abundância para os olhos e para a cozinha. E que nos convida a perguntar: afinal, quantas espécies existem nos oceanos?

Desde o século XVIII, quando começou a classificação científica, foram catalogadas cerca de 250 mil espécies. Esse número gigantesco – que inclui peixes, moluscos, crustáceos, mamíferos marinhos, algas, corais e plâncton, entre outros – é bem menor, porém, que o estimado pelos cientistas. Eles acreditam que existam entre 500 mil e 1 milhão de espécies nos oceanos, muitas delas ainda desconhecidas por conta da dificuldade de acesso a certas regiões, como os fundos abissais, fontes hidrotermais marinhas ou sob camadas de gelo nos polos. Estamos falando, enfim, em algo como 50% e 75% de espécies ainda desconhecidas!

“Panda-esqueleto-do-mar”. Foto: Wikimedia.

De vez em quando, porém, alguns desses “bichos novos” acabam se mostrando ou, então, são contatados por pesquisadores mais audaciosos. Um exemplo interessante é o do “panda-esqueleto-do-mar” (Clavelina ossipandae), um peixe muito peculiar, de 2 cm de comprimento, descoberto e classificado por cientistas japoneses em 2023 na ilha de Kumejima.

Um animal transparente, com uma rede de vasos sanguíneos aparentes e semelhantes, em sua estrutura, a um esqueleto! Detalhe: o panda-esqueleto foi encontrado a apenas 20 metros de profundidade, em um ambiente alcançado pela luz solar, o que mostra que as novas espécies não vivem apenas nos abismos oceânicos; elas também podem estar bem perto!

🌊 Agora, imagine só o que vive nos abismos…

Sim, por incrível que pareça, esses lugares inóspitos para os seres humanos também guardam um verdadeiro tesouro de vida que, aos poucos, vai sendo revelado. Na medida em que as tecnologias avançam, é possível mergulhar mais fundo nas fossas submarinas, ambientes extremos por conta da enorme pressão exercida sobre os seres e objetos (um exemplo: no fundo das Fossas Marianas, a 11 km de profundidade, a pressão é 1.100 vezes maior que no nível do mar!).

Pois foi em um desses abismos – a Fossa de Atacama, localizada entre o Peru e o Chile, a 7 km de profundidade – que em 2022 os cientistas descobriram uma nova espécie, batizada de “peixe-caracol azul do Atacama” (ou, no registro científico, Paraliparis selti).

Peixe-caracol-azul-do-Atacama. Foto: American Association for the Advancement of Science (AAAS).

O pequeno peixe, de pouco menos de um centímetro, é parente de outros peixes caracóis comuns nas águas rasas da região. Contudo, a espécie evoluiu e se desenvolveu nas profundezas, um ambiente inviável para quase todas as espécies que vivem no planeta. Basta pensar que, para chegar lá, os seres humanos usam robôs blindados ou, então, sinos de mergulho poderosíssimos, capazes de resistir à pressão intensa.

Mas, como ele consegue? A resposta está na adaptação e na evolução, que fez com que seu corpo se tornasse gelatinoso e resistente à pressão brutal; além disto, ele não possui bexiga natatória, órgão comum aos peixes (ele regula a profundidade), mas que, em um contexto abissal, é totalmente inútil.

Além dos peixes-caracóis do Atacama, espécies como o polvo-dumbo (do gênero Grimpoteuthis) ou os vermes de Pompeia (Alvinella pompejana), que sobrevivem perto de fontes marinhas hidrotermais superquentes, mostram como a vida se adapta a ambientes inóspitos.

🌊 Dois exemplos, grandes lições

As espécies que citamos – apenas duas, entre dezenas descobertas e classificadas a cada mês – reservam algumas lições. A primeira é a percepção de que o oceano não é, apenas, um grande bioma; ele, na verdade, forma um universo riquíssimo, de semelhanças e diferenças significativas, dadas pela profundidade e por muitos outros fatores.

A segunda lição é a de que as novas espécies são promissoras em termos de conhecimento sobre a vida e, também, sobre caminhos para a própria ciência. Imagine, por exemplo, o que os peixes caracóis azuis do Atacama podem nos revelar sobre materiais resistentes a grandes pressões.

Por fim, mas não menos importante: as novas descobertas nos lembram de nossa própria responsabilidade em relação aos oceanos e a toda a vida. Estamos, enfim, diante de uma teia extraordinária (da qual fazemos parte), antiga, poderosa e resiliente, mas, ao mesmo tempo, muito frágil.

🌊 As novas tecnologias nos oceanos

Grandes desafios implicam grandes soluções, que implicam estudo e conexões entre conhecimentos e tecnologias já existentes. Pois é exatamente esse o caminho das novas tecnologias que estão ajudando a revelar mais e mais sobre os oceanos. Uma fronteira que, como já afirmamos, é enorme, complexa e, muitas vezes, de difícil acesso. Mas que, aos poucos, vai sendo cartografada e analisada em diferentes aspectos – geográficos, biológicos, fisioquímicos, geológicos, meteorológicos etc.

Tomemos como exemplo desse avanço duas tecnologias recentes, começando pela dos robôs submarinos de última geração, os chamados AUVs, que mapeiam o fundo dos oceanos com ajuda da inteligência artificial. Um exemplo emblemático é o do veículo de operação remota ROV SuBastian, do Schmidt Ocean Institute (dos Estados Unidos), capaz de mergulhar a 4.500 metros levando equipamentos de pesquisa.

Crédito: Schmidt Ocean Institute.

Em suas jornadas, até o momento esse “robô marinho” (e outros equipamentos do Instituto) descobriu nada menos do que 20 espécies. Eles também podem encontrar naufrágios, mapear depósitos de minerais de interesse comercial no leito marinho e mensurar áreas oceânicas em risco (como certas zonas de corais).

A segunda tecnologia de alto impacto vem das alturas: falamos do SWOT (Surface Water and Ocean Topography – Topografia da Água Superficial e do Oceano), missão de satélite lançada em 2022 pela Agência Espacial dos Estados Unidos (NASA) e pela Agência Espacial Francesa (CNES).

Sua meta é “olhar” para os cursos de água (rios, que são tributários dos mares) e estabelecer o nível exato dos oceanos; e, de quebra, conhecer a fundo o ciclo da água e mapear as correntes marítimas. Com isso, em breve será possível construir modelos climáticos ainda mais precisos, que auxiliem a humanidade a responder melhor à crise climática, e promover rotas de navegação mais sustentáveis.

🌊 A humanidade no centro do problema

O desenvolvimento tecnológico trouxe uma sobrecarga aos oceanos, como a provocada pelos transportes oceânicos. Foto: Getty Images.

Nos últimos séculos, em especial a partir da Revolução Industrial, a humanidade passou a exercer uma pressão enorme sobre os oceanos, com consequências como o desaparecimento de espécies (o exemplo mais conhecido é o das baleias, que tiveram 4 espécies extintas ou levadas a um declínio irreversível pela caça), a ruptura de cadeias alimentares (pela sobrepesca e pela pesca de arrasto), o surgimento de “ilhas de plástico” provocadas pelo acúmulo de detritos (que já cobrem uma área de 1,6 milhão de km² – mil vezes a área da cidade de São Paulo!) e, mais recentemente, o aquecimento e a elevação do nível das águas oceânicas (atualmente, em 4,5 mm ao ano) em virtude do efeito estufa.

🌊 O que pode vir por aí

Os cientistas, é claro, conhecem a maior parte das causas e podem testemunhar e antecipar muitos de seus efeitos. Um deles, sistêmico e muito poderoso, é justamente o associado à relação entre os oceanos e o efeito estufa.

O “aprisionamento” do calor na superfície terrestre já está provocando consequências como o derretimento de geleiras e a redução da salinidade das águas, que desregula o mecanismo das correntes oceânicas, que são dependentes da diferença de densidade entre água salgada e doce. Com menor salinidade, a água doce não afunda, enfraquecendo ou até paralisando a circulação do oceano.

No caso específico do Atlântico Norte, os cientistas perceberam que, desde os anos 1950, a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), que inclui a Corrente do Golfo, perdeu 15% de sua força, e que pode estar perto de um ponto de virada. Se essa circulação acabar, as consequências serão dramáticas em relação ao clima da Europa Ocidental, que é mais ameno graças às correntes oceânicas quentes. Ele passaria a ser muito mais frio, afetando todas as formas de vida na região.

🌊 O conhecimento como caminho para salvar os oceanos

É complexo e mesmo trágico perceber que a ciência e a tecnologia, responsáveis pelos maiores avanços da humanidade, tenham sido as mesmas que aceleraram o colapso dos oceanos e dos ecossistemas. Nessa mesma fonte, porém, está a chave para a reversão – desde que aplicada com urgência, ética e um compromisso inadiável com o futuro da vida marinha.

Nas últimas décadas, por exemplo, uma moratória internacional à caça da baleia fez com que muitas espécies de cetáceos começassem a recuperar suas populações. Para isso, porém, foi necessário chegar a um consenso político construído graças aos aportes de conhecimentos científicos e à pressão de uma sociedade sensibilizada para o problema. As pessoas, enfim, perceberam que a caça às baleias trazia mais prejuízos do que benefícios – e decidiram agir, cobrando ações de seus representantes.

Baleia-corcunda fotografada em Vitória, Espírito Santo. Foto: Getty Images.

A mesma intencionalidade pela mudança, a mesma pressão política, é essencial para ir além do salvamento das baleias. É preciso, também, pensar em termos de consumo mais racional (de alimentos, roupas, tecnologias), de apoio às energias renováveis, de redução do uso de combustíveis fósseis e de eliminação de desperdícios. De fortalecimento, enfim, de uma consciência ambiental que cresce na sociedade a partir do conhecimento.

🌊 Para ir mais longe

Alguns links interessantes sobre o tema dos oceanos:

🌊 Década da Ciência Oceânica (ONU)

Iniciativa global da ONU para promover a pesquisa e a proteção dos oceanos.

🧬 Ocean Biodiversity Information System (OBIS)

Base de dados internacional que reúne informações sobre a biodiversidade marinha.

https://obis.org

🚀 Missão SWOT (NASA/CNES)

Detalhes sobre o satélite que está mapeando a topografia da água na Terra.

https://swot.jpl.nasa.gov

🐟 Schmidt Ocean Institute – Descobertas recentes do robô SuBastian

Relatórios e vídeos sobre as explorações e espécies descobertas.

🐋 International Whaling Commission – Proteção das baleias

Informações sobre a moratória da caça às baleias e suas consequências.

https://iwc.int

🧪 Revista Science – Artigos sobre biologia marinha e mudanças climáticas

Pesquisas recentes e revisadas por pares sobre oceanos.

https://www.science.org/journal/science

Como Curitibanos (SC) transformou a avaliação diagnóstica em política pública – com apoio do Programa inDICA

Nos últimos anos, redes de ensino de todo o mundo vêm investindo na avaliação diagnóstica da aprendizagem. No Brasil, ela é recomendada pelos principais documentos da educação – está prevista, por exemplo, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, Lei 9.394/96) e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e é apresentada como estratégica para o desenvolvimento da aprendizagem. Em 2024, também foi apontada como ponto de partida para a recomposição das aprendizagens – uma medida essencial no período pós-pandemia, quando os relatórios de distorção ano/série do Censo Escolar apontaram graves problemas.

Por meio do Programa inDICA de Gestão da Educação, a Editora Opet oferece avaliação diagnóstica que já beneficiou mais de 60 mil estudantes da Educação Básica nas redes pública e privada. E, mais do que isso: com o inDICA, a Editora participa diretamente de um processo vital para o sucesso da aprendizagem – o de institucionalização da avaliação diagnóstica, de sua incorporação à cultura educacional.

O grande passo

Silneia Chiquetto

“Eu diria que esse é o grande passo da avaliação diagnóstica”, avalia a coordenadora do Programa inDICA, Silneia Chiquetto (foto). “E ele acontece quando a comunidade escolar – gestores, professores, estudantes e suas famílias – passam a ver a avaliação como algo tão essencial quanto as aulas e as formações pedagógicas. ”

Silneia cita como exemplo dessa evolução o município catarinense de Curitibanos, que há 3 anos iniciou um processo de avaliação diagnóstica da aprendizagem com o inDICA.

“O trabalho é exemplar. Em Curitibanos, a avaliação deixou de ser uma ação acessória e foi 100% incorporada pela comunidade escolar, o que é algo excepcional quando o foco são os resultados de aprendizagem. Esse é o caminho”, avalia Silneia.

Uma política fundamental

Patrícia Maciel Bastos

A diretora de ensino de Curitibanos, professora Patrícia Maciel Bastos (foto), concorda integralmente com essa afirmação. “Exatamente! Curitibanos assumiu a avaliação interna diagnóstica como uma política educacional fundamental. Essa institucionalização demonstra nosso compromisso com a melhoria contínua da educação no município. Incorporar essa prática ao nosso cotidiano escolar permite que tenhamos um olhar mais atento sobre as necessidades dos alunos e possibilita intervenções mais certas”, avalia.

Preparação e ação

Um indício dessa institucionalização pode ser percebido na organização do município para a realização das provas e a gestão das informações. Um exemplo: profissionais da própria secretaria e dos núcleos municipais de ensino participam de uma comissão especialmente criada para a aplicação das provas nos 2º, 5º e 9º anos – considerados críticos em relação aos dados avaliativos.

“São cerca de 20 pessoas que receberam formação específica para garantir que a aplicação das provas ocorra de maneira padronizada e justa. Além disso, foram estabelecidos critérios e parâmetros claros para a aplicação das avaliações, assegurando que todos os alunos tenham as mesmas condições durante o processo”, explica Patrícia.

Outro indício surge em algo que, em princípio, pode parecer “menor”, mas que é extremamente relevante quando se fala em precisão dos dados avaliativos: o acolhimento dos estudantes durante a etapa de prova.

“A avaliação, pelo próprio ritual que envolve, pelo processo, pode ser um momento de tensão para os estudantes. Afinal, eles sabem que estão sendo avaliados. Então, tornar esse processo mais amigável reduz o estresse e, consequentemente, permite respostas mais próximas do nível real de aprendizagem”, explica Silneia.

“O acolhimento das crianças e estudantes é uma prioridade para nós em Curitibanos. Criamos um ambiente acolhedor e amigável, onde os alunos se sentem seguros para realizar as avaliações. Também informamos os pais para que eles também assumam o compromisso junto conosco, e entendam a importância da ação”, conta Patrícia.

E as unidades escolares podem decidir as próprias estratégias de acolhimento. “Cada uma definiu a própria estratégia, como, por exemplo, a entrega de um mimo – um docinho ou um adesivo, por exemplo – para todos os estudantes. E o impacto é muito positivo! Os estudantes se sentem mais motivados, o que se reflete diretamente em seu desempenho nas avaliações.”

Avaliação pedagógica é cultura educacional

Andressa Boscari de Farias

“Hoje, a avaliação pedagógica é parte da nossa cultura educacional. É uma mudança que se reflete na maneira como as escolas e os educadores abordam o processo de ensino-aprendizagem”, avalia a secretária municipal de Educação de Curitibanos, Andressa Boscari de Farias (foto). Segundo ela, os profissionais da educação incorporaram a avaliação como uma ferramenta essencial para entender melhor as necessidades de seus alunos. “Essa prática não é mais vista como uma obrigação, mas sim como uma oportunidade de aprimorar a qualidade do ensino”, observa.

A secretária destaca que esse processo passa por um reforço da importância da avaliação nas reuniões pedagógicas e formações continuadas. Os professores são incentivados a utilizá-la para medir resultados e para promover melhorias contínuas nas práticas educativas. “Podemos afirmar que a avaliação diagnóstica se tornou um componente vital na cultura educacional de Curitibanos”.

Aplicação e engajamento

No início de maio, a rede municipal de ensino de Curitibanos a primeira etapa de avaliações diagnósticas de 2025, que envolveu 2.200 estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Um processo fortalecido pelo planejamento e pela própria incorporação das avaliações como elemento educacional chave.

“Avaliando o andamento do processo, posso dizer que foi muito satisfatório. Observamos um excelente envolvimento de todos e um clima positivo nos núcleos durante as avaliações. E esperamos ansiosos pelos resultados, para alinhar ainda mais estratégias de alcance da aprendizagem com que tanto sonhamos”, observa Patrícia.

Uma avaliação da avaliação

“Como diretora de ensino, posso afirmar que os avanços na aprendizagem são notáveis. Desde o início da parceria com o inDICA, temos observado um aumento significativo no engajamento dos alunos e, consequentemente, na aprendizagem. A avaliação diagnóstica nos permite identificar as áreas que precisamos de mais atenção. Assim, podemos implementar estratégias específicas para atender essas demandas.”

#FuturoPresente: fusão nuclear – chegou a hora da “energia limpa, barata e infinita”?

O futuro da energia reside no plasma da fusão nuclear? Vamos descobrir. Fonte: Getty Images.

Você já parou para se dar conta de o quanto a sua vida está relacionada com a energia? Para ler este artigo, por exemplo, você acessou um smartphone, smart tv ou computador que é alimentado eletricamente. Além disso, só pôde acionar o equipamento porque seu corpo, do cérebro às pontas dos dedos, possui energia suficiente para isto. Em outras palavras: você e o mundo são movidos pela energia… e são totalmente dependentes dela!

Energia: transformação, troca, custo

Acontece, porém, que não há energia de graça. Sendo mais precisos, podemos dizer que toda energia implica uma transformação, uma troca, um custo. Um processo que normalmente gera resíduos, do dióxido de carbono emitido pelo automóvel à casca que sobra de uma banana comida em nome do sabor e da força necessária para seguir trabalhando ou estudando.

Essa, aliás, é uma das grandes questões do nosso tempo: nos últimos três séculos, desde o início da Revolução Industrial, produzimos quantidades enormes de energia, com um custo que se faz cada vez mais visível em termos ambientais. E hoje, no ano de 2025, cerca de 80% da energia primária consumida no planeta vêm de fontes fósseis (petróleo, carvão e gás), que deixam pegadas muito pesadas na natureza – elas respondem por 75% das emissões de CO2 no planeta!

A busca pelo Graal da energia

Chegamos, então, a um dos grandes desafios da ciência: o de acessar fontes de energia baratas, abundantes e limpas (ou mais limpas que as disponíveis). Será que a fusão nuclear é a resposta? Nesta edição de #FuturoPresente, exploramos essa promessa que pode saltar dos laboratórios para a realidade em breve – e revolucionar nossa relação com o planeta.

Quebrar átomos, fundir átomos: a jornada para dominar a energia nuclear

Como a humanidade chegou a dominar a energia contida nos átomos? Esta história começa muito antes dos laboratórios modernos – na verdade, ela nasce da curiosidade filosófica. Imagine um pensador antigo se perguntando: “Se eu partir esta pedra em pedaços cada vez menores, em que momento ela deixará de ser pedra?”.

Esta “imaginação atômica” – a concepção de que toda matéria é composta por partículas minúsculas – remonta a 2.500 anos no passado, desenvolvida simultaneamente por filósofos gregos como Demócrito e por pensadores indianos. Porém, foi somente no início do século XX que essas especulações – fortemente desenvolvidas a partir do século XVIII – ganharam forma concreta, quando cientistas finalmente demonstraram como manipular os próprios blocos fundamentais da matéria.

Estátua de Demócrito encontrada em Herculano, Itália. Fonte: Wikipedia.

Foi nesse contexto revolucionário que passamos a compreender mais plenamente a relação íntima entre matéria e energia – e como explorá-la. Dois caminhos distintos emergiram:

Fissão Nuclear: Descoberta acidentalmente em 1938 por Otto Hahn, Fritz Strassmann e Lise Meitner, ocorre quando o núcleo de átomos pesados (como urânio ou plutônio) se divide após absorver um nêutron, liberando energia imensa e nêutrons adicionais que perpetuam a reação.

Otto Hahn, Fritz Strassmann e Lise Meitner, os mestres da fissão nuclear.
Fonte: Wikipedia

Fusão Nuclear: Explicada por Hans Bethe em 1939, é o processo que alimenta as estrelas – átomos leves de hidrogênio se fundem sob calor e pressão extremos, formando átomos de hélio e liberando quantidades colossais de energia, sem subprodutos radioativos significativos.

Hans Bethe, prêmio Nobel de 1967. Fonte: Wikipedia.

Fissão nuclear: vantagens e riscos

Testada empiricamente da forma mais dramática – com o Projeto Manhattan, que produziu as bombas nucleares lançadas sobre o Japão –, a fissão nuclear entrou na matriz energética de muitos países a partir da segunda metade do século XX. Em 2024, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), havia 412 reatores nucleares em 32 países.

Se, por um lado, a fissão é uma fonte interessante – o parque nuclear atual implica uma redução de 2 bilhões de toneladas por ano de CO2 na atmosfera, a mesma quantidade produzida por uma frota de 400 milhões de automóveis –, por outro provoca grandes preocupações por gerar resíduos radioativos de alta atividade, que permanecem perigosos por milênios.

Além dos resíduos, acidentes como os registrados em Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) deixaram um legado trágico e ilustraram poderosamente a discussão sobre os riscos humanos e ambientais ligados à fissão nuclear. Há vantagens inquestionáveis… e riscos associados também!

Técnico da Agência Atômica Internacional examina área próxima ao acidente nuclear do reator de Fukushima. Fonte: Wikipedia.

Apesar desses riscos, a energia nuclear causa menos mortes por TWh (Tera Watt-hora) gerado que fontes não radioativas como o carvão. Além disso, a próxima geração de reatores nucleares, os chamados SMRs, promete tornar essa energia ainda mais segura e limpa.

Agora, e se essa fonte energética, também baseada nos átomos, não gerar resíduos radioativos? E se ela tomar como referência, como matéria-prima, o elemento mais comum em todo o universo, o Hidrogênio?

Chegamos ao sonho da fusão nuclear, que, como alertou Hans Bethe, nos é demonstrada diariamente. Onde? No sol!

O “Graal” da fusão

Leia estes números e reflita: 1 kg de urânio fissionado em um reator nuclear ao longo de certo período de tempo libera energia equivalente à queima de 3 milhões de quilos de carvão. Nossa, isso é sensacional! Ao mesmo tempo, 1 kg de hidrogênio (deutério-trítio) fusionado é capaz – ao menos, em teoria – de gerar quatro vezes mais energia, o equivalente à queima de 12 milhões de quilos de carvão (uma pilha do tamanho do Pão de Açúcar!). E por um preço sensivelmente menor. Muito melhor!

Sim! Não fosse por um único detalhe: até o momento, a fusão nuclear ainda não “decolou”, e o investimento energético necessário para a produção de energia é maior que a energia gerada. Em outras palavras: a conta “ainda não fecha”.

Mas, estudos e projetos em andamento afirmam que, em algum tempo, teremos progressos importantes. E mais: focando no chamado “hidrogênio verde”, seria possível eliminar as emissões de CO2. É o que vamos saber na sequência.

Usina Termoelétrica a carvão do tipo “brown coal”, o mais poluente dos carvões minerais. Fonte: Getty Images.

Para a conta fechar… e gerar lucros

Os cientistas sabem muito sobre a fusão nuclear. No entanto, apenas agora eles estão começando a dar os primeiros passos mais firmes no sentido de gerar energia por meio da fusão.

Mas, qual é a maior dificuldade? Imagine, para começar, que para a fusão é preciso reproduzir o que acontece no núcleo do Sol. Em termos mais poéticos, os cientistas devem ser capazes de “criar um pequeno sol” e controlá-lo. Mas, como eles fazem isso?

A principal tecnologia atual é a dos chamados “tokamaks”, super-reatores em forma de anel, dotados de imãs gigantes para “domar” o plasma gerado na operação. No interior dos reatores, gases como o hidrogênio (na forma de tritônio – H3) são aquecidos a milhões de graus Celsius e se tornam plasma. Com a pressão e o calor monumentais – dignos do núcleo do Sol – os núcleos dos átomos do gás se fundem, liberando energia.

Representação artística de um tokamak. A parte brilhante, interna, representa o plasma circulando dentro do anel de imãs. Fonte: Getty Images.

O caminho está dado, mas há desafios poderosos. O primeiro é o da temperatura necessária para a fusão, de milhões de graus Celsius (maior que a temperatura do núcleo solar, que é de 15 milhões de graus Celsius). Em todos os testes feitos até agora, essa temperatura e a energia investida para alcançá-la têm sido maiores do que as geradas pelo processo de fusão, o que inviabiliza a operação.

O segundo desafio, ligado ao primeiro, se refere ao controle do plasma dentro dos tokamaks. O plasma, considerado o quarto estado da matéria, é formado quando um gás é aquecido a temperaturas muito altas ou submetido a fortes descargas elétricas, fazendo com que os átomos percam elétrons e se tornem íons. Sem controle, o plasma envolvido no processo pode fazer a reação perder temperatura, inviabilizando o ganho de energia na fusão e danificando equipamentos que são caríssimos.

Afinal, a fusão nuclear é um “beco sem saída”?

Não! Apesar das dificuldades monumentais – até agora, nenhum dos experimentos de geração de plasma produziu mais energia do que consumiu –, os cientistas acreditam que, até 2035, esteja em funcionamento o primeiro reator de fusão nuclear realmente eficiente.

Estamos falando do ITER (sigla em inglês para Reator Termonuclear Experimental Internacional), em construção no sul da França, que promete gerar dez vezes mais energia do que consome.

É um projeto internacional que envolve a participação de 35 países – os 27 membros da União Europeia, Reino Unido, Suíça, China, Índia, Rússia, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos – e que tem um custo de US$ 40 bilhões. O Brasil não é parceiro do projeto, mas participa indiretamente por meio de pesquisadores associados de áreas como as de Física e materiais.

Planta do ITER em Cadarache, no sul da França, na região da Provença-Alpes-Costa Azul. © ITER Organization, 2023. Fonte: iter.org

Mas, o que o ITER tem de diferente?

Para começar, o raio do reator, que é de 6,2 metros – duas vezes o tamanho do maior tokamak atual, o Jet, localizado na Inglaterra. Ele também é capaz de gerar uma temperatura de 150 milhões de graus Celsius – dez vezes maior que a temperatura do sol.

A meta do ITER é produzir 500 MW de energia de fusão com uma carga de acionamento de apenas 50 MW – um ganho de 10x. Para chegar lá, os pesquisadores estão utilizando novas tecnologias, como a de imãs supercondutores de nióbio-estanho resfriados a -269°C que são extremamente poderosos. Além disso, vão utilizar uma tecnologia diferenciada – a dos chamados “divertores de tungstênio” para extrair calor e impurezas do plasma. E também querem fazer com que o tritônio seja produzido dentro do próprio reator a partir de átomos de lítio.

Vista do interior do tokamak do ITER. © ITER Organization, 2023. Fonte: iter.org

O resultado? Muita energia – capaz de alimentar redes elétricas –, de baixo custo e com uma pegada ambiental muito pequena (e riscos associados baixíssimos), capaz de saldar os investimentos no projeto em muito pouco tempo. E, é claro, iniciar – literalmente – uma nova era na civilização!

Para ir mais longe – links:

Portal oficial do Projeto ITER (em inglês e francês)

Fusão Nuclear – Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da USP

G1, Fusão x fissão nuclear: reações produzem energia de formas diferentes; veja glossário do tema

BBC Brasil – Fusão nuclear: como cientistas alcançaram “Santo Graal” da energia limpa

Do “bilete” ao Peixe de Abril: história e significados do Dia da Mentira

O famoso “bilete” do menino Gabriel Lucca, que acabou virando meme. Fonte: Wikipedia.

“É verdade esse bilete [sic]”. Muitos brasileiros conhecem e até utilizam essa frase de vez em quando. Ela foi criada pelo menino Gabriel Lucca, que, aos cinco anos, em 2018, tentou enganar a mãe escrevendo um bilhete em que se passava pela própria professora. A mensagem dizia o seguinte – “Senhores Paes [sic]: amanhã não vai ter aula porque pode ser feriado. Assinado: Tia Paulinha” –, sendo complementada com a frase que abre este parágrafo. A história, que aconteceu na cidade paulista de Bocaina, acabou se transformando em um meme de enorme repercussão para indicar, de forma engraçada, situações em que a mentira contada é tão evidente – ou tão inocente –, que acaba despertando o riso ou a ironia.

Uma mentirinha assim, ao mesmo tempo tão engenhosa e ingênua – tão simpática, na verdade – não deixa de ser um símbolo de algo muito presente em todas as sociedades do mundo. A mentira!

Nem todas as mentiras, evidentemente, são tão inofensivas ou engraçadas quanto a contada por Gabriel. Muitas são perigosas e têm consequências sérias – como, por exemplo, as Fake News, que devem ser combatidas com conhecimento e educação midiática; outras, ainda, destroem a reputação de quem é o objeto da história falsa; e há, também, aquelas associadas ao bullying. Um caso sério!

O Dia da Mentira

A relação é tão profunda que uma parte do mundo chegou até mesmo a criar e cultivar um dia dedicado à mentira, o 1º de abril. Vale observar que não é um dia de mentiras maldosas ou perigosas, mas, sim, de brincadeiras com amigos (sem maldade ou humilhação), algo que traz um pouco da ideia de inversão que inspira o carnaval.

Mas, você sabe como começou essa história? É o que vamos descobrir. E pode confiar “que é verdade este bilhete”!

Mudou o Calendário… mentira!

O dia é da Mentira, mas, em algumas regiões do mundo, também é chamado de Dia dos Tolos, dos Bobos ou dos Enganos, e, também, de “Peixe de Abril” (na Itália e na França – em breve, vamos descobrir por quê). E, ao contrário do que poderíamos pensar vivendo em um mundo repleto de memes, truques e tentativas de engano, ele não é recente. Não, mesmo! Quem estuda o tema afirma que a tradição de um “Dia da Mentira” tem mais de 500 anos – ou seja, é quase tão antiga quanto o Brasil!

“Buon Pesce D’Aprile!” (“Feliz Peixe de Abril!”). O Dia da Mentira é uma tradição que nasceu na Europa do século XVI. Fonte: Getty Images.

Mas, como começou?

A culpa seria da Igreja, de um calendário e de um rei francês. E de um bando de gente que começou a ridicularizar e a pregar peças em seus semelhantes!

Gregório XIII, o “pai do novo calendário”. Fonte: Wikipedia.

Vamos explicar: entre 1545 e 1563, a Igreja Católica realizou o Concílio de Trento, na Itália, em que discutiu várias medidas relacionadas à religião. Uma delas foi a substituição do calendário juliano (criado em Roma no século I) pelo calendário gregoriano, mais preciso, que corrigia uma distorção temporal crescente que influenciava o calendário litúrgico, ou seja, das celebrações da Igreja. A substituição foi feita alguns anos mais tarde, em 1582, pelo papa Gregório XIII (que também deu nome ao calendário). Vale observar que, no chamado Cristianismo Ortodoxo, adotado em países como a Rússia, a Ucrânia e a Armênia, ainda se utiliza o calendário juliano, com ou sem ajustes. 

E cumpra-se!

Como, na época, as decisões da Igreja tinham enorme poder sobre as sociedades, os reis começaram a aplicar a regra. Uma das mudanças do novo calendário estabelecia o início do ano no dia 1º de janeiro. Até então, a data de início do ano, no calendário juliano, variava de região para região – algumas partes da Europa o celebravam no dia 1º de março, outras no dia 25 do mesmo mês; com as distorções do próprio calendário juliano, esta última data chegava perto do 1º de abril.

Na França, o ajuste foi decretado pelo rei Henrique III no finalzinho de 1582. Resultado: uma parte da população aderiu à novidade e a outra se recusou a celebrar o Réveillon na data nova, preferindo manter… o 1º de abril!

Rapidinho, os resistentes, uma minoria, passaram a ser ridicularizados pelos demais. E acabavam até convidados para festas de ano novo – em 1º de abril, é claro – que, na verdade, eram uma grande enganação, com pregação de peças, brincadeiras e outras “esculhambações”. Pronto: nascia o Dia da Mentira!  

Uma piada bem arriscada

A bagunça virou tradição e ganhou todo o mundo ocidental, inclusive o Brasil colonial.

Foi apenas no início do Brasil Império – mais exatamente, em 1828 –, porém, que a data ganhou uma “certidão de nascimento” em terras tupiniquins. Naquele ano, no dia 1º de abril, a primeira edição do jornal satírico mineiro “A Mentira” (olhe só o título…) trazia como manchete, nada mais, nada menos, do que a morte de Dom Pedro I!

Foi, evidentemente, uma sensação, até porque ninguém sabia bem qual era a “cara”, a linha editorial do jornal. Muita gente acreditou, muita gente riu e muita gente ficou furiosa!

Brincadeiras e jornais

No Dia da Mentira de 1980, a rede britânica BBC anunciou que o Big Ben seria “atualizado” para um formato digital. Fonte: Wikipedia.

Não se sabe exatamente se a brincadeira trouxe consequências para os editores do jornal – na época, D. Pedro se via às voltas com questões muito sérias como a independência da antiga província Cisplatina (atual Uruguai) –, mas o fato é que, a partir de então, a data acabou consagrada para a pregação de peças.

No próprio campo jornalístico, por exemplo, brincadeiras do tipo (com envio de notícias falsas para as redações) eram muito comuns até recentemente. E levaram os jornais a reforçar seus mecanismos de checagem de informações! Em alguns países – como o Reino Unido -, os jornais pregavam peças com notícias falsas em 1º de abril.

E como os países celebram o Dia da Mentira hoje?

Em um mundo ultraconectado e altamente interconectado, é possível afirmar que o Dia da Mentira segue mais ou menos um mesmo roteiro, com algumas diferenças regionais. E é possível, inclusive, que esteja perdendo força. Assim como ocorria (e ocorre) no Brasil, em países como os Estados Unidos e o Reino Unido as redações de jornal são alvo preferencial dos brincalhões de 1º de abril, que enviam notícias absurdas, releases de brincadeira e outras “pegadinhas”, algumas vezes bem elaboradas.

A ideia é enganar os editores e fazer com que eles publiquem as notícias como verdadeiras. Com o fortalecimento da verificação de fatos (fact checking) e a migração dos jornais para o mundo digital (que permite correções rápidas em caso de engano), porém, a tendência é de que o sucesso dessas “publicações desastradas” seja cada vez menor. Até mesmo porque, em um mundo assolado por Fake News e desinformação, elas já não têm tanta graça!

“Fact” (fato) ou “Fake” (falso): uma das grandes questões da mídia e da sociedade no século XXI. Fonte: Getty Images.

E o “Peixe de Abril”?

Alguns parágrafos acima, falamos que, na Itália e na França, o Dia da Mentira também é chamado de “Peixe de Abril”. E esse nome só existe porque, nesses países, é tradição colar um peixe de papel nas costas das “vítimas” da festa sem que elas se deem conta. Nada, aliás, que desconheçamos: brincadeiras do tipo, especialmente com bilhetes pregados nas costas, já foram (e ainda são) relativamente comuns entre nós.

Mas elas também perderam força, em especial por conta de uma maior consciência coletiva a respeito da humilhação e do bullying – um problema gravíssimo, em especial nas escolas, que causa sofrimento e deve ser combatido.

Conclusão: o Dia da Mentira tem história… e é bom conhecê-la!

Ao conhecer um pouco mais sobre a origem do Dia da Mentira, descobrimos coisas que abrem possibilidades de reflexão. Como, por exemplo, os fatores relacionados à construção das tradições. Como surgem as datas festivas, em especial as populares? Quem diria, por exemplo, que uma mudança no calendário – com pessoas contra e a favor – acabaria gerando uma festa popular?

Vimos, também, o papel que a Igreja Católica desempenhou na vida das sociedades europeias por séculos. Um decreto papal, validado por vários reis, mudou a data de início do ano!

Por fim, pudemos perceber a resposta das sociedades a mudanças importantes em seu dia a dia. No caso do Dia da Mentira, de contestação, assimilação e construção de significado – uma festa que sobrevive quase 500 anos depois de uma mudança decretada por um papa!

Por fim – e o mais importante -, o Dia da Mentira também pode ser uma oportunidade de reflexão e ação em relação a temas fundamentais da nossa época: as Fake News, a educação midiática, a checagem de fatos e, especialmente, o respeito às pessoas e à dignidade humana. Refletir conhecendo, pesquisando e dialogando. E agir combatendo o bullying com inteligência, seriedade, conhecimento e empatia.

Para pensar a Água! Dados e reflexões sobre um bem essencial

Você já pensou na ideia de educar alguém para a água? A ideia pode soar até um pouco estranha – afinal, a água é a companheira de todas as formas de vida do nosso planeta desde sempre –, mas ela é cada vez mais necessária!

Com o aumento do consumo de água por setores como a indústria, a pecuária e a agricultura, a pressão sobre rios, lagos e reservatórios subterrâneos cresce significativamente.

Além disso, eventos extremos, como as recentes enchentes no Rio Grande do Sul, mostram que as mudanças climáticas já estão impactando diretamente o regime das águas. Períodos de chuva intensa e estiagens prolongadas têm se tornado cada vez mais comuns, em um fenômeno que pesquisadores chamam de “emergência climática”.

“Um copo d’água, Sr. Lavoisier”

Por volta de 1775, na França, o químico Antoine Lavoisier publicou uma frase que se tornaria célebre no campo da ciência. Essa observação, que ganhou o nome de “Lei da Conservação das Massas” (ou “Lei de Lavoisier”), afirmava que, “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa lei vale para os compostos químicos e para a água – porque, independentemente das transformações químicas ou físicas pelas quais ela passe, ao fim do processo sua massa total sempre será conservada.

O que significa dizer que, salvo pela chegada de “água do espaço sideral” em meteoros/meteoritos – algo que é muito raro e insignificante em termos de volume, ao menos na nossa época –, a quantidade da substância é a mesma há muitos milhões de anos. E ela apenas vai se transformando em um eterno ciclo de “sólido, líquido e gasoso”.

🌊 Transformações complicadas

Diante disso, não haveria por que se preocupar, certo? Errado! Porque, se nós não temos a capacidade de “fazer desaparecer” a massa total de água do planeta, reunimos todas as condições – e fazemos isso constantemente – de transformá-la. Não apenas dentro de seus estados físicos, mas também por meio da poluição e de alterações no relevo terrestre (com a construção de represas e o desmatamento, por exemplo).

Essas mudanças comprometem a qualidade da água para todas as formas de vida, e podem demandar esforços gigantescos – muitas vezes, inviáveis – de recuperação ou recomposição. Em síntese: dispomos de toda a água do mundo, mas não estamos sabendo como cuidar dela. E os resultados são preocupantes!

 

🌧️ Algumas informações interessantes

Você já ouviu falar em “superfície terrestre”, certo? Ela é aquela camada do nosso planeta, aquela “capa” – apesar de enorme, muito fina na comparação com o diâmetro do planeta – onde a vida acontece. Ela é formada pela litosfera (camada sólida), pela hidrosfera (oceanos, mares, lagos, rios e reservatórios subterrâneos) e pela atmosfera (a camada gasosa).

E é justamente nela que está toda a água; aliás, cerca de 71% da superfície terrestre é coberta por água. Nesse ambiente ela circula sem parar, seguindo o chamado “ciclo da água” – circulação em estado líquido, evaporação, congelamento, retorno em forma de chuva e assim por diante. E pode até acabar “estocada”, na forma líquida, em lençóis subterrâneos e reservatórios conhecidos como aquíferos, que são tremendamente importantes para a regulagem dos próprios rios; e em geleiras, situadas nas zonas mais altas do planeta e, também, próximo dos polos.

Detalhe crucial: como os seres vivos são formados e dependem totalmente da água, é possível afirmar, sem errar, que eles entram no mesmo ciclo: nós, por exemplo, bebemos água, consumimos alimentos, vamos ao banheiro, respiramos, transpiramos… ou seja, também estamos “trocando água” com o mundo o tempo todo!

A quantidade de água, como observamos, é grande – algo como 1,386 bilhão de quilômetros cúbicos (se colocássemos toda ela em uma esfera, esta teria um pouco menos da metade do tamanho da Lua!). O que não significa dizer que estamos com a “caixa cheia”! Isso porque 97,3% dela é salgada; 77,2% está congelada (doce ou salgada, em montanhas, icebergs e banquisas); 22,4% está guardada sob a terra, em lençóis e aquíferos; e apenas 2,7% é doce. Só que nem toda a água doce é potável – ou seja, própria para o consumo humano.

Quanto ao uso da água pelas sociedades, em uma média ele está dividido da seguinte maneira: 70% na agricultura e pecuária, 20% na indústria (em processos de fabricação, resfriamento, produção de energia e limpeza) e 10% no uso doméstico (alimentação, limpeza, sistemas de esgoto etc.). Vale observar que esses percentuais variam entre os países – o Brasil, por exemplo, utiliza mais água no setor agropecuário do que outros países.

Vale observar que todos esses usos são humanos e se situam dentro de um universo muito mais complexo, que compreende os demais componentes da biosfera. O que significa dizer que, além de “nos atender”, a água também deve nutrir todos os demais seres vivos dentro de um sistema repleto de variáveis (como, por exemplo, as estações do ano).

🚱 “Ah, mas se faltar a gente dá um jeito…”

Depende! Se, por um lado, em tese é possível recuperar e potabilizar águas contaminadas, salobras, salgadas ou “escondidas” – e há uma corrida tecnológica em busca de meios mais interessantes para isso –, por outro lado estes processos todos são, sempre, muito caros.

Para ter acesso a uma fonte de água subterrânea, por exemplo, é preciso cavar um poço, que pode ser muito profundo; muitas vezes, a água dos poços precisa ser tratada, resfriada e até desmineralizada para, então, estar disponível para o consumo.

E há um outro fator muito importante: o tempo. Há um antigo ditado chinês que afirma que “uma pessoa não deve começar a cavar um poço quando já está com sede”; esta regra parece funcionar perfeitamente para a questão de que estamos tratando. Visto em termos muito gerais, o mundo ainda não está “com sede” – ela, porém, já afeta muitas pessoas e causa muitas mortes.

Dados da ONU (2023) mostram que cerca de 2 bilhões de pessoas (26% da população global) não têm acesso a água potável segura; destas, cerca de 1,7 bilhão utiliza fontes contaminadas por fezes ou produtos químicos; e cerca de 4 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano.

A maior parte das pessoas afetadas vive nos países mais pobres, que não possuem meios de solucionar a questão. À medida, porém, que a emergência climática se acelera, esse número vai crescer e chegar, também, aos países mais fortes economicamente. Há, inclusive, quem afirme que já estamos em uma etapa de “guerras da água”, quando países lutarão pelo controle e pelo uso deste recurso. Nesse sentido, o futuro não é nada promissor…

🛡️ Então, como fazer?

Promissor, mesmo, é investir em caminhos sustentáveis para o uso e a conservação das águas disponíveis. Ao invés de explorar aquíferos, proteger as nascentes e os rios; ao invés de dessalinizar a água do mar, proteger as florestas e recompor o meio ambiente em regiões degradadas para “plantar água” (regulando os lençóis e protegendo os rios do assoreamento). Ao invés de consumir alimentos e produtos cuja produção implica um gasto extremo de água, olhar com cuidado para os próprios hábitos em busca de equilíbrio.

Pausa para um exemplo: a produção de 1 kg de carne bovina envolve, em média, o consumo de 15 mil litros de água (os dados são do Water Footprint Network e do Instituto Akatu); tomando como referência o valor recomendado pela ONU de consumo de água por pessoa/dia, que é de 110 litros, chegamos à conclusão de que o volume de água investido na produção de 1 kg de carne poderia suprir as necessidades diárias de uma pessoa por mais de 4 meses!

Não estamos falando, evidentemente, em eliminar o consumo de carne bovina, que é um hábito nutricional, cultural e de saúde de bilhões de pessoas em todo o mundo; o importante, aqui, é refletir sobre os hábitos e a responsabilidade em relação aos impactos do consumo.

🚰 Dia Mundial da Água

Essa, aliás, é uma ideia central do Dia Internacional da Água, proposto pela Organização das Nações Unidas em 1992. A data, que é comemorada no dia 22 de março, funciona como um mobilizador de pessoas, empresas e sociedade para conhecer os problemas da água, conscientizar sobre o uso consciente de um recurso que é precioso e escasso.

Na medida em que esse é um processo civilizatório – ou seja, ele implica uma mudança de hábitos e de olhar de longa duração, que envolve toda uma comunidade –, ele deve, necessariamente, envolver a educação e a escola, já na Educação Básica. E é aí que entra em cena a Educação Ambiental, prevista, no caso brasileiro, de forma transversal (pela BNCC). E que, evidentemente, pode ser trabalhada de muitas maneiras, integrando colocações mais teóricas – como a que diz respeito, por exemplo, à compreensão esquemática do ciclo da água – e metodologias ativas que trabalhem com observação de campo, ação e protagonismo dos estudantes.

É possível, por exemplo, envolver os estudantes no conhecimento dos rios da cidade/bairro onde eles moram, do papel das águas para o desenvolvimento da civilização naquele local e a forma como estes cursos estão sendo tratados na atualidade. Perguntas como “Onde está o rio que passava ali?” ou “Quais são e onde ficam os rios do seu bairro?” podem dar início a belos projetos de pesquisa com impacto na comunidade.

É possível envolver os estudantes na compreensão dos custos de tratamento do esgoto em uma visita às estações e estruturas associadas. É possível, enfim, fazer com que eles percebam a relação entre água e os hábitos de consumo de diferentes maneiras. E levá-los a conhecer os caminhos para a conservação e o uso racional e sustentável.

Essa lista de possibilidades, evidentemente, é muito maior, e pode levar em conta os muitos cenários onde as escolas e as comunidades estão inseridas. O essencial, em todos os casos, é o letramento das novas gerações para uma questão fundamental.

💦 Quero encontrar mais fontes:

Legal! Vamos listar alguns links importantes para o trabalho sobre a temática da água na escola:

Organização das Nações Unidas (ONU) – Água (UN Water): Portal que mostra o trabalho da ONU em relação à água e ao saneamento. Traz notícias, relatórios e infográficos. Disponivel em português.

UNESCO – Programa Hidrológico Internacional (PHI): A UNESCO promove pesquisas e educação sobre gestão sustentável da água. O Programa Hidrológico Internacional (PHI) é uma referência global em estudos sobre recursos hídricos. Em inglês e espanhol.

Water Footprint Network (Rede de Pegada Hídrica): Esta organização internacional calcula a “pegada hídrica” de produtos, países e indivíduos, mostrando o consumo de água em diferentes atividades. Em inglês.

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA): O portal da agência reguladora de recursos hídricos no Brasil traz notícias e materiais educacionais interessantes. Em português.

Portal Trata Brasil: O portal do Instituto Trata Brasil traz informações relevantes e materiais educativos sobre o saneamento básico no país. Em português.

Há, também, espaços físicos dedicados à educação para a água. Destacamos o Museu Planeta Água, mantido pela Companhia de Saneamento Básico do Paraná, a Sanepar, em Curitiba, e o Museu Água, mantido em São Paulo pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESABESP).