Exoesqueletos: das armaduras… ao futuro!

Vamos fazer um exercício de imaginação: você está prestes a vestir uma armadura. Pode até pensar naqueles torneios da Idade Média ou, então, em samurais ou soldados romanos marchando com suas couraças e elmos. Acontece que o que você vai vestir não é bem uma armadura… mas um exoesqueleto! Isso mesmo: um “esqueleto de fora para dentro”, se vale a brincadeira, com características e aplicações que já estão revolucionando os campos da indústria, da medicina e até das guerras. E é sobre esse fantástico avanço científico que nós vamos conversar nesta edição de #FuturoPresente. Venha com a gente!

No início, eram as armaduras

Fonte: Getty Images.

No parágrafo anterior, associamos armaduras a exoesqueletos. Mas, fora o “jeitão”, no que elas se assemelham? Boa pergunta! Armaduras e exoesqueletos partem de um mesmo princípio: ambos são wearable tech, tecnologia vestível, e buscam modificar uma ou mais características de quem os porta.

No caso da armadura, a mudança busca proteger o corpo do usuário contra pancadas, golpes de lâmina e perfurações. No caso do exoesqueleto, as possibilidades vão além. Ele pode proteger o corpo, aumentar a força física, recuperar e reabilitar movimentos ou amplificar os sentidos físicos do usuário. Ou seja: há semelhanças importantes, mas os exoesqueletos “navegam por mares mais distantes” – eles são mais sutis e complexos, e podem interagir profundamente com o corpo e o cérebro de seu portador.

Mas, afinal, por que “exoesqueleto”?

A palavra “exoesqueleto” é uma velha conhecida dos biólogos. Ela surge da soma entre o prefixo grego “exo”, que significa “fora” ou “externo”, e a palavra “esqueleto”, também de origem grega, que indica a estrutura óssea de sustentação nos indivíduos de muitas espécies. Neles, o esqueleto está situado “dentro”, e os órgãos e músculos se constroem, via de regra, “ao redor”, especialmente da coluna vertebral. Duas exceções são as costelas e o crânio, que se sobrepõem aos órgãos internos (pulmões e coração, cérebro), protegendo-os.

Fonte: Getty Images.

No caso do exoesqueleto, a estrutura de sustentação está fora e as partes moles estão dentro – e ficam especialmente protegidas. Isso faz com que os espécimes dotados dessa estrutura sejam naturalmente blindados. E quem são esses espécimes?

Se você pensou em formigas, besouros, baratas, aranhas, escorpiões, caranguejos, lagostas e siris, pensou certo! Os exoesqueletos são comuns entre os artrópodes, animais invertebrados que possuem um exoesqueleto rígido, corpo segmentado e apêndices – como pernas e antenas – articulados. Vale observar que esses “bichos” não são exceção. Eles formam o maior filo do reino animal, com mais de um milhão de espécies descritas – cerca de 80% de todos os animais conhecidos!

Fora isso, é importante observar – falando rapidamente – que esqueletos e exoesqueletos têm diferenças marcantes em relação à composição e à biologia: enquanto os ossos são estruturas vivas (com células e vasos sanguíneos), os exoesqueletos são formados por tecidos inertes (construído com substâncias como a queratina); enquanto os ossos crescem junto com o indivíduo até a idade adulta (e seus tecidos se renovam de forma permanente), os exoesqueletos são trocados de forma periódica, literalmente descartados (a chamada ecdise) para acompanhar o crescimento de seu portador.

Uma comparação interessante

Fonte: Getty Images.

Essa diferença entre ossos e carapaças, tecido vivo e tecido inerte, talvez possa ilustrar bem uma diferença essencial entre armaduras e exoesqueletos de alta tecnologia. Enquanto as armaduras são “inertes” – isto é, elas se restringem a proteger o corpo –, os exoesqueletos são “vivos”, ou seja, eles interagem com seu portador para aumentar capacidades e oferecer um suporte vital altamente diferenciado. Para isso, integram várias tecnologias – mecânica, eletrônica, de materiais e biomateriais, médica… – e alcançam resultados fantásticos. Que vamos conhecer daqui a pouco!

Antes de vestir o “exo”…

Fonte: Wikimedia Commons.

Exoesqueletos de alta tecnologia são instrumentos fascinantes. Mas, por que eles nos fascinam? E como, na verdade, ficamos sabendo a respeito deles, uma vez que – ao menos, até o momento – ainda não são produzidos em grande quantidade?

A resposta pode estar na cultura, mais exatamente nos quadrinhos e no cinema, com seus super-heróis, vilões, uniformes extraordinários e, é claro, super-poderes. Como, por exemplo, os garantidos pelas armaduras exoesqueléticas usadas por Tony Stark como “Homem de Ferro” ou pelo “P-5000 Powered Work Loader”, exoesqueleto de carga vestido pela personagem Ellen Ripley em “Aliens: o Resgate”, filme de 1986 (curiosidade: esse exoesqueleto foi inspirado em protótipos criados pela empresa GE nos anos 1960).

Ambas peças cumprem funções totalmente previstas pelos cientistas para a nova tecnologia. E, de quebra, ainda alimentam o sonho ancestral humano de ter poderes que os coloquem no topo da natureza (algo que se relaciona aos mitos e aos deuses). O resultado: sucesso no imaginário – e inspiração para a ciência!

Mas, quando surgiram os exoesqueletos modernos?

As armaduras, como já vimos, são “antepassados” dos exoesqueletos baseados em tecnologia. Olhando para a história desses equipamentos, porém, percebemos que eles estão muito mais próximos do que poderíamos imaginar. Eles podem não ter as mesmas funções, mas nasceram em contextos semelhantes: a guerra e a necessidade de aumentar o desempenho humano.

Fonte: Wikimidia Commons

Isso porque os primeiros exoesqueletos, que surgiram há cerca de setenta anos, foram criados nos Estados Unidos para atender a uma necessidade das forças armadas – exatamente como acontecia por milênios com as armaduras, inventadas para proteger seus portadores, os guerreiros.

Pense, por exemplo, na necessidade que os militares têm de transportar grandes cargas, de munições a peças de reposição, ou de cavar trincheiras rapidamente. Esse era o objetivo do Hardiman, exoesqueleto motorizado de braços e pernas vestíveis desenvolvido pela General Electric (GE) em parceria com o Exército dos EUA (imagem ao lado). O nome Hardiman é o acrônimo de “Human Augmentation Research and Development Investigation” (HARDI) + “MANipulator” (MAN), expressão que pode ser traduzida como “Investigação para pesquisa e desenvolvimento do aumento da capacidade de manipulação humana”.

O criador do projeto, o engenheiro Ralph Mosher, buscou produzir um aparato capaz de multiplicar a força humana. A ideia era a de que, ao vesti-lo, a pessoa pudesse levantar facilmente cargas de 1500 libras (cerca de 680 kg), sem qualquer esforço muscular maior que o associado aos movimentos normais de braços e pernas.

O projeto era visualmente fascinante. Na época, porém, não havia tecnologia capaz de garantir sua estabilidade, por exemplo, por meio de sensores eletrônicos. A máquina era pesadíssima, dava trancos perigosos e apenas uma de suas partes, um braço mecânico colossal, funcionava, e ainda por cima de forma limitada. Resultado: não chegou a ser testada por seres humanos diretamente e acabou arquivada – mas, definitivamente, abriu uma porta para outras tentativas.

O ponto de virada

Os anos 1990 foram marcados pela chegada de tecnologias altamente impactantes. Foi o tempo de popularização dos computadores pessoais, de grandes avanços na microeletrônica, da chegada da internet às casas das pessoas, de novos materiais (como ligas especiais e cerâmicos) e de avanços na área de automação industrial. Um conjunto de soluções que, muito provavelmente, “daria conta” de todos os problemas percebidos no projeto Hardiman. Ele, porém, não voltou à cena.

Fonte: Getty Images.

Para o universo dos exoesqueletos, o período marcou um aporte tecnológico essencial: sensores digitais biométricos, giroscópios, estruturas mais leves e motores elétricos mais compactos e eficientes. Os aparatos “brutamontes”, enfim, saíam de cena para dar lugar a equipamentos elegantes e “cirúrgicos” em termos de desempenho. As possibilidades eram muitas! Foi nessa época que o foco das pesquisas foi dividido em três grandes áreas: militar, médica (de reabilitação) e industrial.

Chegamos, então, ao nosso tempo e aos “exos” que estão saindo dos laboratórios para dar suporte à vida real. Vamos conhecê-los!

Os exoesqueletos da nossa época

Hoje em dia, o “sonho de superpoderes” prometido pelos exoesqueletos está cada vez mais próximo. Esses aparatos ainda não chegaram ao cotidiano da maioria das pessoas, o que pode estar relacionado ao seu alto custo e, também, às suas finalidades muito específicas. Sem contar o fato de que, até o momento (a não ser, nos filmes e na literatura), eles não encontram finalidades estéticas ou recreativas.

Para os fins a que se destinam, porém, os novos “exos” – que contam com aportes tecnológicos recentes, como os da IA – se mostram transformadores. Como no caso da medicina de reabilitação, em que exoesqueletos de empresas como ReWalk e Ekso Bionics estão devolvendo a mobilidade a pessoas afetadas por lesões medulares.

Fonte: Wikimedia Commons.

Nesse campo, aliás, um brasileiro possui grande destaque: é Miguel Nicolelis (foto ao lado), médico e neurocientista brasileiro que lidera um time de pesquisadores na Universidade Duke, nos Estados Unidos. Em 2014, na abertura da Copa do Mundo do Brasil, ele apresentou um exoesqueleto cujos movimentos eram comandados diretamente pelo cérebro do usuário – no caso, Juliano Pinto, um paraplégico do tronco e dos membros inferiores que chutou uma bola.

No campo da indústria, exoesqueletos vêm sendo utilizados especialmente no suporte físico de operários, em plantas como as da Huyndai (Coreia) e Panasonic (Japão). Com os equipamentos – que, externamente, se assemelham em certa medida aos “exos” de reabilitação –, esses funcionários podem levantar cargas mais pesadas e se manter por mais tempo em posições que, normalmente, exigiriam um esforço físico muito maior.

Por fim, mas não menos importantes, são os exoesqueletos de aplicação militar, que, aos poucos, também começam a “dar as caras” nos quartéis. Não pense, porém (pelo menos, ainda), em equipamentos como o do Homem de Ferro, com capacidade de voo e armas integradas. Na verdade, eles se assemelham muito aos exoesqueletos de uso industrial. Sua meta é resolver um dos problemas mais antigos do universo militar: o da capacidade individual, de cada soldado, de transportar peso por longas distâncias sem se cansar. Nessa área, o principal projeto em andamento é o Human Universal Load Carrier (Transportador Humano Universal de Cargas), HULC, desenvolvido pela Lockheed Martin nos Estados Unidos.

E o que vem por aí…

Exoesqueleto: representação artística feita por IA. Geração: Freepik.

É bem possível que, em algumas décadas, este artigo seja lido como uma curiosidade de um tempo antigo. Afinal, com os avanços tecnológicos que estamos vendo, é provável que os exoesqueletos acabem “mergulhando” em suas três áreas de desenvolvimento: teremos mais pessoas reabilitadas (e reabilitações mais sofisticadas), trabalhadores mais confortáveis em suas árduas missões e soldados marchando por mais tempo com mochilas super-pesadas.

É possível, também, que aplicações “exo” estejam disponíveis em trajes do cotidiano, funcionando como interfaces entre o corpo humano e outras máquinas. E, quem sabe, no espaço sideral, garantindo suporte à vida e força em ambientes hostis e de muita ou pouca ação gravitacional.

E isso só será possível graças a avanços em áreas que já apontamos, como a dos materiais, que deverão ser cada vez mais leves e flexíveis – muito mais “vestíveis”, enfim. E das neurociências, que devem garantir avanços acelerados na conexão entre o cérebro e as máquinas. Nesse caso, aliás, o tema chega quase a ser outro: saem os exoesqueletos, entram os biônicos! Essa, porém, é outra história…

Para ir mais longe…

Uma seleção de links interessantes sobre exoesqueletos e suas aplicações:

ReWalk Robotics – Fabricante de exoesqueletos para pessoas com lesões medulares.
🌐 https://rewalk.com/

Ekso Bionics – Desenvolve exoesqueletos para reabilitação e uso industrial.
🌐 https://eksobionics.com/

Miguel Nicolelis (Nicolelis Lab – Duke University) – Laboratório do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis.
🌐 https://www.nicolelislab.net/

Portal G1 – “Pesquisadores brasileiros avançam nos estudos sobre uso de exoesqueletos e IA na reabilitação física e neurológica”

🌐 https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2025/01/19/pesquisadores-brasileiros-avancam-nos-estudos-sobre-uso-de-exoesqueletos-e-ia-na-reabilitacao-fisica-e-neurologica.ghtml

Jornal da USP – Exoesqueleto robótico: desafio é diminuir custo e trazer maior portabilidade ao paciente

🌐 https://jornal.usp.br/atualidades/exoesqueleto-robotico-desafio-e-diminuir-custo-e-trazer-maior-portabilidade-ao-paciente/

BBC Brasil – Pai cientista constrói exoesqueleto para filho com paralisia andar

🌐 https://www.bbc.com/portuguese/geral-58033087

Como Curitibanos (SC) transformou a avaliação diagnóstica em política pública – com apoio do Programa inDICA

Nos últimos anos, redes de ensino de todo o mundo vêm investindo na avaliação diagnóstica da aprendizagem. No Brasil, ela é recomendada pelos principais documentos da educação – está prevista, por exemplo, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB, Lei 9.394/96) e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), e é apresentada como estratégica para o desenvolvimento da aprendizagem. Em 2024, também foi apontada como ponto de partida para a recomposição das aprendizagens – uma medida essencial no período pós-pandemia, quando os relatórios de distorção ano/série do Censo Escolar apontaram graves problemas.

Por meio do Programa inDICA de Gestão da Educação, a Editora Opet oferece avaliação diagnóstica que já beneficiou mais de 60 mil estudantes da Educação Básica nas redes pública e privada. E, mais do que isso: com o inDICA, a Editora participa diretamente de um processo vital para o sucesso da aprendizagem – o de institucionalização da avaliação diagnóstica, de sua incorporação à cultura educacional.

O grande passo

Silneia Chiquetto

“Eu diria que esse é o grande passo da avaliação diagnóstica”, avalia a coordenadora do Programa inDICA, Silneia Chiquetto (foto). “E ele acontece quando a comunidade escolar – gestores, professores, estudantes e suas famílias – passam a ver a avaliação como algo tão essencial quanto as aulas e as formações pedagógicas. ”

Silneia cita como exemplo dessa evolução o município catarinense de Curitibanos, que há 3 anos iniciou um processo de avaliação diagnóstica da aprendizagem com o inDICA.

“O trabalho é exemplar. Em Curitibanos, a avaliação deixou de ser uma ação acessória e foi 100% incorporada pela comunidade escolar, o que é algo excepcional quando o foco são os resultados de aprendizagem. Esse é o caminho”, avalia Silneia.

Uma política fundamental

Patrícia Maciel Bastos

A diretora de ensino de Curitibanos, professora Patrícia Maciel Bastos (foto), concorda integralmente com essa afirmação. “Exatamente! Curitibanos assumiu a avaliação interna diagnóstica como uma política educacional fundamental. Essa institucionalização demonstra nosso compromisso com a melhoria contínua da educação no município. Incorporar essa prática ao nosso cotidiano escolar permite que tenhamos um olhar mais atento sobre as necessidades dos alunos e possibilita intervenções mais certas”, avalia.

Preparação e ação

Um indício dessa institucionalização pode ser percebido na organização do município para a realização das provas e a gestão das informações. Um exemplo: profissionais da própria secretaria e dos núcleos municipais de ensino participam de uma comissão especialmente criada para a aplicação das provas nos 2º, 5º e 9º anos – considerados críticos em relação aos dados avaliativos.

“São cerca de 20 pessoas que receberam formação específica para garantir que a aplicação das provas ocorra de maneira padronizada e justa. Além disso, foram estabelecidos critérios e parâmetros claros para a aplicação das avaliações, assegurando que todos os alunos tenham as mesmas condições durante o processo”, explica Patrícia.

Outro indício surge em algo que, em princípio, pode parecer “menor”, mas que é extremamente relevante quando se fala em precisão dos dados avaliativos: o acolhimento dos estudantes durante a etapa de prova.

“A avaliação, pelo próprio ritual que envolve, pelo processo, pode ser um momento de tensão para os estudantes. Afinal, eles sabem que estão sendo avaliados. Então, tornar esse processo mais amigável reduz o estresse e, consequentemente, permite respostas mais próximas do nível real de aprendizagem”, explica Silneia.

“O acolhimento das crianças e estudantes é uma prioridade para nós em Curitibanos. Criamos um ambiente acolhedor e amigável, onde os alunos se sentem seguros para realizar as avaliações. Também informamos os pais para que eles também assumam o compromisso junto conosco, e entendam a importância da ação”, conta Patrícia.

E as unidades escolares podem decidir as próprias estratégias de acolhimento. “Cada uma definiu a própria estratégia, como, por exemplo, a entrega de um mimo – um docinho ou um adesivo, por exemplo – para todos os estudantes. E o impacto é muito positivo! Os estudantes se sentem mais motivados, o que se reflete diretamente em seu desempenho nas avaliações.”

Avaliação pedagógica é cultura educacional

Andressa Boscari de Farias

“Hoje, a avaliação pedagógica é parte da nossa cultura educacional. É uma mudança que se reflete na maneira como as escolas e os educadores abordam o processo de ensino-aprendizagem”, avalia a secretária municipal de Educação de Curitibanos, Andressa Boscari de Farias (foto). Segundo ela, os profissionais da educação incorporaram a avaliação como uma ferramenta essencial para entender melhor as necessidades de seus alunos. “Essa prática não é mais vista como uma obrigação, mas sim como uma oportunidade de aprimorar a qualidade do ensino”, observa.

A secretária destaca que esse processo passa por um reforço da importância da avaliação nas reuniões pedagógicas e formações continuadas. Os professores são incentivados a utilizá-la para medir resultados e para promover melhorias contínuas nas práticas educativas. “Podemos afirmar que a avaliação diagnóstica se tornou um componente vital na cultura educacional de Curitibanos”.

Aplicação e engajamento

No início de maio, a rede municipal de ensino de Curitibanos a primeira etapa de avaliações diagnósticas de 2025, que envolveu 2.200 estudantes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Um processo fortalecido pelo planejamento e pela própria incorporação das avaliações como elemento educacional chave.

“Avaliando o andamento do processo, posso dizer que foi muito satisfatório. Observamos um excelente envolvimento de todos e um clima positivo nos núcleos durante as avaliações. E esperamos ansiosos pelos resultados, para alinhar ainda mais estratégias de alcance da aprendizagem com que tanto sonhamos”, observa Patrícia.

Uma avaliação da avaliação

“Como diretora de ensino, posso afirmar que os avanços na aprendizagem são notáveis. Desde o início da parceria com o inDICA, temos observado um aumento significativo no engajamento dos alunos e, consequentemente, na aprendizagem. A avaliação diagnóstica nos permite identificar as áreas que precisamos de mais atenção. Assim, podemos implementar estratégias específicas para atender essas demandas.”

#FuturoPresente: fusão nuclear – chegou a hora da “energia limpa, barata e infinita”?

O futuro da energia reside no plasma da fusão nuclear? Vamos descobrir. Fonte: Getty Images.

Você já parou para se dar conta de o quanto a sua vida está relacionada com a energia? Para ler este artigo, por exemplo, você acessou um smartphone, smart tv ou computador que é alimentado eletricamente. Além disso, só pôde acionar o equipamento porque seu corpo, do cérebro às pontas dos dedos, possui energia suficiente para isto. Em outras palavras: você e o mundo são movidos pela energia… e são totalmente dependentes dela!

Energia: transformação, troca, custo

Acontece, porém, que não há energia de graça. Sendo mais precisos, podemos dizer que toda energia implica uma transformação, uma troca, um custo. Um processo que normalmente gera resíduos, do dióxido de carbono emitido pelo automóvel à casca que sobra de uma banana comida em nome do sabor e da força necessária para seguir trabalhando ou estudando.

Essa, aliás, é uma das grandes questões do nosso tempo: nos últimos três séculos, desde o início da Revolução Industrial, produzimos quantidades enormes de energia, com um custo que se faz cada vez mais visível em termos ambientais. E hoje, no ano de 2025, cerca de 80% da energia primária consumida no planeta vêm de fontes fósseis (petróleo, carvão e gás), que deixam pegadas muito pesadas na natureza – elas respondem por 75% das emissões de CO2 no planeta!

A busca pelo Graal da energia

Chegamos, então, a um dos grandes desafios da ciência: o de acessar fontes de energia baratas, abundantes e limpas (ou mais limpas que as disponíveis). Será que a fusão nuclear é a resposta? Nesta edição de #FuturoPresente, exploramos essa promessa que pode saltar dos laboratórios para a realidade em breve – e revolucionar nossa relação com o planeta.

Quebrar átomos, fundir átomos: a jornada para dominar a energia nuclear

Como a humanidade chegou a dominar a energia contida nos átomos? Esta história começa muito antes dos laboratórios modernos – na verdade, ela nasce da curiosidade filosófica. Imagine um pensador antigo se perguntando: “Se eu partir esta pedra em pedaços cada vez menores, em que momento ela deixará de ser pedra?”.

Esta “imaginação atômica” – a concepção de que toda matéria é composta por partículas minúsculas – remonta a 2.500 anos no passado, desenvolvida simultaneamente por filósofos gregos como Demócrito e por pensadores indianos. Porém, foi somente no início do século XX que essas especulações – fortemente desenvolvidas a partir do século XVIII – ganharam forma concreta, quando cientistas finalmente demonstraram como manipular os próprios blocos fundamentais da matéria.

Estátua de Demócrito encontrada em Herculano, Itália. Fonte: Wikipedia.

Foi nesse contexto revolucionário que passamos a compreender mais plenamente a relação íntima entre matéria e energia – e como explorá-la. Dois caminhos distintos emergiram:

Fissão Nuclear: Descoberta acidentalmente em 1938 por Otto Hahn, Fritz Strassmann e Lise Meitner, ocorre quando o núcleo de átomos pesados (como urânio ou plutônio) se divide após absorver um nêutron, liberando energia imensa e nêutrons adicionais que perpetuam a reação.

Otto Hahn, Fritz Strassmann e Lise Meitner, os mestres da fissão nuclear.
Fonte: Wikipedia

Fusão Nuclear: Explicada por Hans Bethe em 1939, é o processo que alimenta as estrelas – átomos leves de hidrogênio se fundem sob calor e pressão extremos, formando átomos de hélio e liberando quantidades colossais de energia, sem subprodutos radioativos significativos.

Hans Bethe, prêmio Nobel de 1967. Fonte: Wikipedia.

Fissão nuclear: vantagens e riscos

Testada empiricamente da forma mais dramática – com o Projeto Manhattan, que produziu as bombas nucleares lançadas sobre o Japão –, a fissão nuclear entrou na matriz energética de muitos países a partir da segunda metade do século XX. Em 2024, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), havia 412 reatores nucleares em 32 países.

Se, por um lado, a fissão é uma fonte interessante – o parque nuclear atual implica uma redução de 2 bilhões de toneladas por ano de CO2 na atmosfera, a mesma quantidade produzida por uma frota de 400 milhões de automóveis –, por outro provoca grandes preocupações por gerar resíduos radioativos de alta atividade, que permanecem perigosos por milênios.

Além dos resíduos, acidentes como os registrados em Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) deixaram um legado trágico e ilustraram poderosamente a discussão sobre os riscos humanos e ambientais ligados à fissão nuclear. Há vantagens inquestionáveis… e riscos associados também!

Técnico da Agência Atômica Internacional examina área próxima ao acidente nuclear do reator de Fukushima. Fonte: Wikipedia.

Apesar desses riscos, a energia nuclear causa menos mortes por TWh (Tera Watt-hora) gerado que fontes não radioativas como o carvão. Além disso, a próxima geração de reatores nucleares, os chamados SMRs, promete tornar essa energia ainda mais segura e limpa.

Agora, e se essa fonte energética, também baseada nos átomos, não gerar resíduos radioativos? E se ela tomar como referência, como matéria-prima, o elemento mais comum em todo o universo, o Hidrogênio?

Chegamos ao sonho da fusão nuclear, que, como alertou Hans Bethe, nos é demonstrada diariamente. Onde? No sol!

O “Graal” da fusão

Leia estes números e reflita: 1 kg de urânio fissionado em um reator nuclear ao longo de certo período de tempo libera energia equivalente à queima de 3 milhões de quilos de carvão. Nossa, isso é sensacional! Ao mesmo tempo, 1 kg de hidrogênio (deutério-trítio) fusionado é capaz – ao menos, em teoria – de gerar quatro vezes mais energia, o equivalente à queima de 12 milhões de quilos de carvão (uma pilha do tamanho do Pão de Açúcar!). E por um preço sensivelmente menor. Muito melhor!

Sim! Não fosse por um único detalhe: até o momento, a fusão nuclear ainda não “decolou”, e o investimento energético necessário para a produção de energia é maior que a energia gerada. Em outras palavras: a conta “ainda não fecha”.

Mas, estudos e projetos em andamento afirmam que, em algum tempo, teremos progressos importantes. E mais: focando no chamado “hidrogênio verde”, seria possível eliminar as emissões de CO2. É o que vamos saber na sequência.

Usina Termoelétrica a carvão do tipo “brown coal”, o mais poluente dos carvões minerais. Fonte: Getty Images.

Para a conta fechar… e gerar lucros

Os cientistas sabem muito sobre a fusão nuclear. No entanto, apenas agora eles estão começando a dar os primeiros passos mais firmes no sentido de gerar energia por meio da fusão.

Mas, qual é a maior dificuldade? Imagine, para começar, que para a fusão é preciso reproduzir o que acontece no núcleo do Sol. Em termos mais poéticos, os cientistas devem ser capazes de “criar um pequeno sol” e controlá-lo. Mas, como eles fazem isso?

A principal tecnologia atual é a dos chamados “tokamaks”, super-reatores em forma de anel, dotados de imãs gigantes para “domar” o plasma gerado na operação. No interior dos reatores, gases como o hidrogênio (na forma de tritônio – H3) são aquecidos a milhões de graus Celsius e se tornam plasma. Com a pressão e o calor monumentais – dignos do núcleo do Sol – os núcleos dos átomos do gás se fundem, liberando energia.

Representação artística de um tokamak. A parte brilhante, interna, representa o plasma circulando dentro do anel de imãs. Fonte: Getty Images.

O caminho está dado, mas há desafios poderosos. O primeiro é o da temperatura necessária para a fusão, de milhões de graus Celsius (maior que a temperatura do núcleo solar, que é de 15 milhões de graus Celsius). Em todos os testes feitos até agora, essa temperatura e a energia investida para alcançá-la têm sido maiores do que as geradas pelo processo de fusão, o que inviabiliza a operação.

O segundo desafio, ligado ao primeiro, se refere ao controle do plasma dentro dos tokamaks. O plasma, considerado o quarto estado da matéria, é formado quando um gás é aquecido a temperaturas muito altas ou submetido a fortes descargas elétricas, fazendo com que os átomos percam elétrons e se tornem íons. Sem controle, o plasma envolvido no processo pode fazer a reação perder temperatura, inviabilizando o ganho de energia na fusão e danificando equipamentos que são caríssimos.

Afinal, a fusão nuclear é um “beco sem saída”?

Não! Apesar das dificuldades monumentais – até agora, nenhum dos experimentos de geração de plasma produziu mais energia do que consumiu –, os cientistas acreditam que, até 2035, esteja em funcionamento o primeiro reator de fusão nuclear realmente eficiente.

Estamos falando do ITER (sigla em inglês para Reator Termonuclear Experimental Internacional), em construção no sul da França, que promete gerar dez vezes mais energia do que consome.

É um projeto internacional que envolve a participação de 35 países – os 27 membros da União Europeia, Reino Unido, Suíça, China, Índia, Rússia, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos – e que tem um custo de US$ 40 bilhões. O Brasil não é parceiro do projeto, mas participa indiretamente por meio de pesquisadores associados de áreas como as de Física e materiais.

Planta do ITER em Cadarache, no sul da França, na região da Provença-Alpes-Costa Azul. © ITER Organization, 2023. Fonte: iter.org

Mas, o que o ITER tem de diferente?

Para começar, o raio do reator, que é de 6,2 metros – duas vezes o tamanho do maior tokamak atual, o Jet, localizado na Inglaterra. Ele também é capaz de gerar uma temperatura de 150 milhões de graus Celsius – dez vezes maior que a temperatura do sol.

A meta do ITER é produzir 500 MW de energia de fusão com uma carga de acionamento de apenas 50 MW – um ganho de 10x. Para chegar lá, os pesquisadores estão utilizando novas tecnologias, como a de imãs supercondutores de nióbio-estanho resfriados a -269°C que são extremamente poderosos. Além disso, vão utilizar uma tecnologia diferenciada – a dos chamados “divertores de tungstênio” para extrair calor e impurezas do plasma. E também querem fazer com que o tritônio seja produzido dentro do próprio reator a partir de átomos de lítio.

Vista do interior do tokamak do ITER. © ITER Organization, 2023. Fonte: iter.org

O resultado? Muita energia – capaz de alimentar redes elétricas –, de baixo custo e com uma pegada ambiental muito pequena (e riscos associados baixíssimos), capaz de saldar os investimentos no projeto em muito pouco tempo. E, é claro, iniciar – literalmente – uma nova era na civilização!

Para ir mais longe – links:

Portal oficial do Projeto ITER (em inglês e francês)

Fusão Nuclear – Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da USP

G1, Fusão x fissão nuclear: reações produzem energia de formas diferentes; veja glossário do tema

BBC Brasil – Fusão nuclear: como cientistas alcançaram “Santo Graal” da energia limpa

Do “bilete” ao Peixe de Abril: história e significados do Dia da Mentira

O famoso “bilete” do menino Gabriel Lucca, que acabou virando meme. Fonte: Wikipedia.

“É verdade esse bilete [sic]”. Muitos brasileiros conhecem e até utilizam essa frase de vez em quando. Ela foi criada pelo menino Gabriel Lucca, que, aos cinco anos, em 2018, tentou enganar a mãe escrevendo um bilhete em que se passava pela própria professora. A mensagem dizia o seguinte – “Senhores Paes [sic]: amanhã não vai ter aula porque pode ser feriado. Assinado: Tia Paulinha” –, sendo complementada com a frase que abre este parágrafo. A história, que aconteceu na cidade paulista de Bocaina, acabou se transformando em um meme de enorme repercussão para indicar, de forma engraçada, situações em que a mentira contada é tão evidente – ou tão inocente –, que acaba despertando o riso ou a ironia.

Uma mentirinha assim, ao mesmo tempo tão engenhosa e ingênua – tão simpática, na verdade – não deixa de ser um símbolo de algo muito presente em todas as sociedades do mundo. A mentira!

Nem todas as mentiras, evidentemente, são tão inofensivas ou engraçadas quanto a contada por Gabriel. Muitas são perigosas e têm consequências sérias – como, por exemplo, as Fake News, que devem ser combatidas com conhecimento e educação midiática; outras, ainda, destroem a reputação de quem é o objeto da história falsa; e há, também, aquelas associadas ao bullying. Um caso sério!

O Dia da Mentira

A relação é tão profunda que uma parte do mundo chegou até mesmo a criar e cultivar um dia dedicado à mentira, o 1º de abril. Vale observar que não é um dia de mentiras maldosas ou perigosas, mas, sim, de brincadeiras com amigos (sem maldade ou humilhação), algo que traz um pouco da ideia de inversão que inspira o carnaval.

Mas, você sabe como começou essa história? É o que vamos descobrir. E pode confiar “que é verdade este bilhete”!

Mudou o Calendário… mentira!

O dia é da Mentira, mas, em algumas regiões do mundo, também é chamado de Dia dos Tolos, dos Bobos ou dos Enganos, e, também, de “Peixe de Abril” (na Itália e na França – em breve, vamos descobrir por quê). E, ao contrário do que poderíamos pensar vivendo em um mundo repleto de memes, truques e tentativas de engano, ele não é recente. Não, mesmo! Quem estuda o tema afirma que a tradição de um “Dia da Mentira” tem mais de 500 anos – ou seja, é quase tão antiga quanto o Brasil!

“Buon Pesce D’Aprile!” (“Feliz Peixe de Abril!”). O Dia da Mentira é uma tradição que nasceu na Europa do século XVI. Fonte: Getty Images.

Mas, como começou?

A culpa seria da Igreja, de um calendário e de um rei francês. E de um bando de gente que começou a ridicularizar e a pregar peças em seus semelhantes!

Gregório XIII, o “pai do novo calendário”. Fonte: Wikipedia.

Vamos explicar: entre 1545 e 1563, a Igreja Católica realizou o Concílio de Trento, na Itália, em que discutiu várias medidas relacionadas à religião. Uma delas foi a substituição do calendário juliano (criado em Roma no século I) pelo calendário gregoriano, mais preciso, que corrigia uma distorção temporal crescente que influenciava o calendário litúrgico, ou seja, das celebrações da Igreja. A substituição foi feita alguns anos mais tarde, em 1582, pelo papa Gregório XIII (que também deu nome ao calendário). Vale observar que, no chamado Cristianismo Ortodoxo, adotado em países como a Rússia, a Ucrânia e a Armênia, ainda se utiliza o calendário juliano, com ou sem ajustes. 

E cumpra-se!

Como, na época, as decisões da Igreja tinham enorme poder sobre as sociedades, os reis começaram a aplicar a regra. Uma das mudanças do novo calendário estabelecia o início do ano no dia 1º de janeiro. Até então, a data de início do ano, no calendário juliano, variava de região para região – algumas partes da Europa o celebravam no dia 1º de março, outras no dia 25 do mesmo mês; com as distorções do próprio calendário juliano, esta última data chegava perto do 1º de abril.

Na França, o ajuste foi decretado pelo rei Henrique III no finalzinho de 1582. Resultado: uma parte da população aderiu à novidade e a outra se recusou a celebrar o Réveillon na data nova, preferindo manter… o 1º de abril!

Rapidinho, os resistentes, uma minoria, passaram a ser ridicularizados pelos demais. E acabavam até convidados para festas de ano novo – em 1º de abril, é claro – que, na verdade, eram uma grande enganação, com pregação de peças, brincadeiras e outras “esculhambações”. Pronto: nascia o Dia da Mentira!  

Uma piada bem arriscada

A bagunça virou tradição e ganhou todo o mundo ocidental, inclusive o Brasil colonial.

Foi apenas no início do Brasil Império – mais exatamente, em 1828 –, porém, que a data ganhou uma “certidão de nascimento” em terras tupiniquins. Naquele ano, no dia 1º de abril, a primeira edição do jornal satírico mineiro “A Mentira” (olhe só o título…) trazia como manchete, nada mais, nada menos, do que a morte de Dom Pedro I!

Foi, evidentemente, uma sensação, até porque ninguém sabia bem qual era a “cara”, a linha editorial do jornal. Muita gente acreditou, muita gente riu e muita gente ficou furiosa!

Brincadeiras e jornais

No Dia da Mentira de 1980, a rede britânica BBC anunciou que o Big Ben seria “atualizado” para um formato digital. Fonte: Wikipedia.

Não se sabe exatamente se a brincadeira trouxe consequências para os editores do jornal – na época, D. Pedro se via às voltas com questões muito sérias como a independência da antiga província Cisplatina (atual Uruguai) –, mas o fato é que, a partir de então, a data acabou consagrada para a pregação de peças.

No próprio campo jornalístico, por exemplo, brincadeiras do tipo (com envio de notícias falsas para as redações) eram muito comuns até recentemente. E levaram os jornais a reforçar seus mecanismos de checagem de informações! Em alguns países – como o Reino Unido -, os jornais pregavam peças com notícias falsas em 1º de abril.

E como os países celebram o Dia da Mentira hoje?

Em um mundo ultraconectado e altamente interconectado, é possível afirmar que o Dia da Mentira segue mais ou menos um mesmo roteiro, com algumas diferenças regionais. E é possível, inclusive, que esteja perdendo força. Assim como ocorria (e ocorre) no Brasil, em países como os Estados Unidos e o Reino Unido as redações de jornal são alvo preferencial dos brincalhões de 1º de abril, que enviam notícias absurdas, releases de brincadeira e outras “pegadinhas”, algumas vezes bem elaboradas.

A ideia é enganar os editores e fazer com que eles publiquem as notícias como verdadeiras. Com o fortalecimento da verificação de fatos (fact checking) e a migração dos jornais para o mundo digital (que permite correções rápidas em caso de engano), porém, a tendência é de que o sucesso dessas “publicações desastradas” seja cada vez menor. Até mesmo porque, em um mundo assolado por Fake News e desinformação, elas já não têm tanta graça!

“Fact” (fato) ou “Fake” (falso): uma das grandes questões da mídia e da sociedade no século XXI. Fonte: Getty Images.

E o “Peixe de Abril”?

Alguns parágrafos acima, falamos que, na Itália e na França, o Dia da Mentira também é chamado de “Peixe de Abril”. E esse nome só existe porque, nesses países, é tradição colar um peixe de papel nas costas das “vítimas” da festa sem que elas se deem conta. Nada, aliás, que desconheçamos: brincadeiras do tipo, especialmente com bilhetes pregados nas costas, já foram (e ainda são) relativamente comuns entre nós.

Mas elas também perderam força, em especial por conta de uma maior consciência coletiva a respeito da humilhação e do bullying – um problema gravíssimo, em especial nas escolas, que causa sofrimento e deve ser combatido.

Conclusão: o Dia da Mentira tem história… e é bom conhecê-la!

Ao conhecer um pouco mais sobre a origem do Dia da Mentira, descobrimos coisas que abrem possibilidades de reflexão. Como, por exemplo, os fatores relacionados à construção das tradições. Como surgem as datas festivas, em especial as populares? Quem diria, por exemplo, que uma mudança no calendário – com pessoas contra e a favor – acabaria gerando uma festa popular?

Vimos, também, o papel que a Igreja Católica desempenhou na vida das sociedades europeias por séculos. Um decreto papal, validado por vários reis, mudou a data de início do ano!

Por fim, pudemos perceber a resposta das sociedades a mudanças importantes em seu dia a dia. No caso do Dia da Mentira, de contestação, assimilação e construção de significado – uma festa que sobrevive quase 500 anos depois de uma mudança decretada por um papa!

Por fim – e o mais importante -, o Dia da Mentira também pode ser uma oportunidade de reflexão e ação em relação a temas fundamentais da nossa época: as Fake News, a educação midiática, a checagem de fatos e, especialmente, o respeito às pessoas e à dignidade humana. Refletir conhecendo, pesquisando e dialogando. E agir combatendo o bullying com inteligência, seriedade, conhecimento e empatia.

Uma pequena história da tecnologia dos livros

Em argila, papiro, pergaminho, papel ou, mais recentemente, em formato digital, os livros estão entre as maiores conquistas – e, certamente, as maiores expressões – da humanidade. Eles guardam as leis civis e os princípios religiosos, as ideias, a ciência e muitas histórias. São tão importantes e estão tão presentes que, muitas vezes, a gente nem imagina quando começaram. Afinal, quem escreveu os primeiros livros? E quando os livros impressos ganharam a “cara” que têm hoje, de um conjunto de folhas impressas e reunidas em um volume encadernado? É o que vamos saber neste artigo especial – boa leitura!

Escrita, acesso e mobilidade

Quando falamos em livros, a imagem que naturalmente vem à mente é a dos livros que conhecemos hoje: produzidos em papel, com capa, páginas internas e o formato de caderno. Um modelo perfeito para armazenar, transportar e acessar informações, que se tornou cada vez mais popular graças à descoberta e ao domínio das tecnologias de produção do papel (séc. II, China) e da impressão em tipos móveis (séc. XI, China e séc. XVI, Europa). E experimentou um salto a partir do século XIX, com avanços na indústria gráfica que culminaram, em nossa época, em tecnologias como a da impressão digital e a produção em larga escala.

Os primeiros livros da humanidade, porém, não reuniam toda essa praticidade! Ou melhor, reuniam, mas à sua maneira! E davam conta totalmente do recado – tanto, que muitos sobreviveram por mais de cinco mil anos! Estamos falando das tábuas de escrita cuneiforme, produzidas em argila cozida pelos sumérios, civilização que existiu na Mesopotâmia, em áreas dos territórios do atual Iraque e Síria, por volta de 3.200 a.C.; nelas, a escrita era feita usando-se espátulas com ponta em forma de cunha – daí o nome “cuneiforme”.

Tábua de argila com registro de escrita cuneiforme.

As tabuinhas, aliás, prenunciam o uso que damos hoje ao papel: no caso daqueles documentos que precisavam ser guardados, como leis, tratados e textos sagrados, elas eram queimadas e, assim, adquiriam grande resistência, sendo então guardadas nas primeiras bibliotecas; no caso de escritas do dia a dia – contas, recibos, recados, exercícios –, elas eram registradas em argila e postas a secar no sol. Quando necessário, a escrita podia ser apagada com água, permitindo que a placa fosse reutilizada para novos registros.

Outros suportes geniais para a produção de livros, ainda que um pouco mais recentes – mas, mesmo assim, muito antigas – vêm da China e, é claro, do nosso conhecido Egito Antigo. Na China, há cerca de quatro mil anos, os primeiros textos eram literalmente riscados em ossos e cascos de tartaruga. Pelo século VI a. C., porém, os redatores já usavam tiras de bambu costuradas em formato de esteira, onde escreviam usando pincel e tinta. Curiosamente, o bambu seria a base para uma das maiores invenções da história: o papel – sobre o qual falaremos daqui a pouco.

Quanto ao Egito, é impossível separar esta incrível civilização de uma palavra: papiro. O papiro, uma planta aquática (Cyperus papyrus), tornou-se essencial porque, por séculos, foi o principal suporte para a escrita. Não apenas no próprio Egito, onde era utilizado desde o século XXV a.C., mas também em Roma, que conquistou a civilização dos faraós (no séc. I a.C.) e disseminou seu uso por todo o império.

Rolos de papiro. Invenção egípcia se tornou muito popular no Império Romano.

Outras civilizações importantes da Antiguidade, como a indiana, usavam suportes vegetais para a escrita. Muitos textos clássicos do hinduísmo, como o “Mahabharata”, eram registrados em folhas de palmeira tratadas. As folhas, aliás, apresentam uma vantagem e uma desvantagem em comparação às tábuas sumérias de argila: são mais leves e fáceis de armazenar, mas, ao mesmo tempo, mais frágeis, podendo ser facilmente destruídas, rasgadas ou queimadas.

Códice: livro “com cara” de livro

Como vimos, os livros estão entre nós há muito tempo e são quase tão antigos quanto a própria escrita, que, aliás, foi inventada pelos sumérios. A escrita, vale observar, foi criada diversas vezes, por civilizações distintas e em épocas diferentes: mesopotâmicos, chineses, fenícios, maias… criações originais, que demonstram a inteligência humana!

Mas, quando foi que esses documentos ganharam “cara de livro”? Ou melhor: quando foi que eles ficaram mais parecidos com os livros impressos que conhecemos hoje?

A resposta está em Roma. Foi lá que nasceu o “Codex” ou códice – do latim, “casca de árvore” –, um caderno produzido a partir de folhas costuradas, muito usado por comerciantes. No início, os códices eram considerados menos nobres que os rolos de papiro, porém, pela praticidade de armazenamento e até de uso, acabaram prevalecendo.

Códice grego do século X, com trecho do Evangelho.

Duas curiosidades aqui: 1) – os primeiros textos cristãos, escritos no século I, foram assentados em códices e não em rolos de papiro; 2) – outra civilização, totalmente separada de Roma, também inventou o códice: os maias, que, por volta do século XII, começaram a publicar livros em folha de figueira chamados por eles de “huun”. Infelizmente, a maioria desses documentos acabou destruída quando da chegada dos espanhóis à península mexicana.

Lâminas 8 e 9 do Códice Maia de Dresden.

E o pergaminho?

Antes de avançar para um momento muito especial da história do livro, é interessante falar sobre um outro material importante para sua confecção: o pergaminho, cujo nome deriva do nome da cidade grega de Pérgamo, onde teria surgido por volta do século II a.C (na verdade, seu uso é mais antigo, mas o nome “pegou”). O pergaminho nada mais é do que uma pele animal – normalmente, de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha – especialmente tratada para receber a escrita. Documentos mais luxuosos, produzidos em pele de bezerros, eram chamados “velinos”.

Os pergaminhos competiam com os papiros e até os substituíam. Como na Idade Média europeia, quando os monastérios cristãos produziram e reproduziram milhares de textos usando pergaminhos – isto porque o couro estava muito mais à mão que os papiros do agora distante Egito. Se bem conservado, o pergaminho é um material durável, o que também justifica a preferência.

Documento oficial de 1329 redigido sobre um velino.

Papel e impressão

É curioso: nossos livros atuais são, ao mesmo tempo, muito diferentes e muito semelhantes aos livros de 500 anos atrás. São diferentes porque, hoje, as tecnologias de impressão e montagem são muito mais avançadas – elas, aliás, passaram por várias revoluções ao longo do tempo, com a indústria e os computadores –, e também porque em nossa época a variedade de papéis de impressão é muito grande. E são iguais por conta, justamente, do papel e da impressão!

Ambas as tecnologias vêm da China, com a observação de que, no caso da impressão de tipos móveis, ela também foi criada no Ocidente, em um processo semelhante ao que já observamos em relação à escrita – a mesma invenção, em tempos diferentes.

Da China para o mundo

No caso do papel, ele foi criado na China por volta do século II a.C., quando seus inventores começaram a usar fibras vegetais trituradas (de bambu, cânhamo, amoreira, restos de tecido e redes). Essas fibras eram mergulhadas em tanques e filtradas em telas bem finas, em que ficavam depositadas e formavam camadas; depois de secas, estas camadas se transformavam em folhas de papel que eram, então, recortadas. Por volta do século I d.C., usando fibras de bambu, um inventor chinês chamado C’ai Lun aprimorou a técnica de produção do papel. A partir de então, ele ganhou o mundo, chegando a outras regiões da Ásia, à África e à Europa, pela Rota da Seda. E, com a difusão da tecnologia pelo mundo, gradativamente tornou-se mais barato e popular. E, como funcionava muito melhor que o papiro e o pergaminho – pela regularidade, cor e oferta –, acabou prevalecendo. Em tempo: a produção do papel, atualmente, segue a mesma lógica da técnica inicial; a matéria-prima, porém, é a celulose (principal componente da parede celular das plantas), extraída de árvores de reflorestamento.

Impressão lá e cá

Chegamos, então, à impressão, que possui vários antecedentes, a começar pelo carimbo e o decalque, que já eram conhecidos e utilizados por várias civilizações em todo o mundo. No entanto, foi apenas por volta do século XI, na China, que se pensou em imprimir textos usando tipos – no caso chinês, com ideogramas – para compor as frases. São os chamados “tipos móveis”, ou seja, tipos que podem ser reaproveitados.

De forma simples, na impressão tradicional, podemos dizer que cada tipo é como um pequeno carimbo, que é alinhado com outros tipos dentro de uma estrutura para formar as frases. Depois de ser devidamente “enquadrada”, cada página recebe uma camada de tinta e, então, é aplicada sobre uma folha de papel com uma certa pressão. Nesse sistema, para que os ideogramas (ou letras) fossem impressos corretamente, era preciso produzir os tipos invertidos.

E foi exatamente essa a técnica desenvolvida na Europa, no século XV, por Johannes Gutenberg, um relojoeiro alemão que se dedicou à produção de livros e, neste processo, acabou “virando a chave” para a popularização dos livros – e, de quebra, ajudou a impulsionar grandes transformações como o Renascimento e a Reforma. Pense, por exemplo, na popularização das Bíblias (que passaram a ser traduzidas para vários idiomas), nos manuais técnicos, nas obras filosóficas e científicas. Bingo!

Ateliê europeu de impressão. Observe-se a composição da chapa tipos móveis, à direita, e a chamada “entintagem” dos tipos à esquerda.

Em termos gerais, ambas as técnicas, a chinesa e a de Gutenberg, partiam da mesma premissa. Contudo, o alfabeto latino, por seu número limitado de letras, facilitava a composição de textos (naquela época, a escrita chinesa possuía dezenas de milhares de ideogramas!). Além disso, a tecnologia de Gutemberg utilizava tipos metálicos, mais duráveis, enquanto a chinesa se baseava em tipos de madeira ou cerâmica, mais frágeis.

Livro coreano (escrito em chinês) impresso em tipos móveis. Século XIII.

Revolução e livros

No século XVIII, a Inglaterra liderou um movimento de profunda transformação da produção – a Revolução Industrial. Os artesãos, pessoas altamente especializadas, deram lugar a operários e máquinas, que produziam mais em menos tempo. Esse processo, que está muito relacionado com a própria Revolução Científica, promoveu grandes mudanças na sociedade, com reflexos sobre os livros e a leitura.

As técnicas de impressão melhoraram sensivelmente em qualidade e escala (como, por exemplo, com a impressora movida a vapor), ao mesmo tempo em que as pessoas, que passaram a se concentrar nas cidades, foram tendo mais acesso à educação e à alfabetização. E vieram os jornais populares, as novelas de detetives e os romances, os tratados filosóficos e de política, os panfletos, os livros técnicos, os livros didáticos… livros à mancheia, como diria Castro Alves em “O Livro e a América”!

No século XIX, os jornais populares impulsionaram o interesse pela leitura.

No final do século XX houve um novo salto no segmento editorial. Tecnologias de impressão consagradas, como a offset com fotolito, deram lugar à impressão digital. Os livros passaram a ser escritos e diagramados com uso de softwares e apoio de recursos avançados de fotografia digital e envio de dados. A escala também cresceu muito, e o preço das impressões caiu. Além disso, a logística envolvida na compra e envio dos livros também melhorou muito.

Apenas para se ter uma ideia, o Brasil imprime, em média, 300 milhões de livros por ano – muitos, destinados diretamente ao setor educacional (livros didáticos); nos Estados Unidos, este número chega perto de um bilhão de exemplares. Uma enormidade!

O futuro nas páginas

A apresentação de livros em formato digital, em suportes eletrônicos como os computadores pessoais e o Kindle, abriu uma nova frente para os leitores. E, antecipamos o futuro aqui, vai facilitar a vida das futuras gerações em suas andanças pelo universo com suas “bibliotecas de bolso”!

O mais importante é que os livros – estes velhos e queridos companheiros, tão humanos, tão nossos – vão continuar revolucionando o mundo. Com conhecimento, sentimento, sabedoria e informação.

Tecnologias como a do E-book ampliaram ainda mais o acesso aos livros. Mas, elas representam o futuro?

Para pensar a Água! Dados e reflexões sobre um bem essencial

Você já pensou na ideia de educar alguém para a água? A ideia pode soar até um pouco estranha – afinal, a água é a companheira de todas as formas de vida do nosso planeta desde sempre –, mas ela é cada vez mais necessária!

Com o aumento do consumo de água por setores como a indústria, a pecuária e a agricultura, a pressão sobre rios, lagos e reservatórios subterrâneos cresce significativamente.

Além disso, eventos extremos, como as recentes enchentes no Rio Grande do Sul, mostram que as mudanças climáticas já estão impactando diretamente o regime das águas. Períodos de chuva intensa e estiagens prolongadas têm se tornado cada vez mais comuns, em um fenômeno que pesquisadores chamam de “emergência climática”.

“Um copo d’água, Sr. Lavoisier”

Por volta de 1775, na França, o químico Antoine Lavoisier publicou uma frase que se tornaria célebre no campo da ciência. Essa observação, que ganhou o nome de “Lei da Conservação das Massas” (ou “Lei de Lavoisier”), afirmava que, “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Essa lei vale para os compostos químicos e para a água – porque, independentemente das transformações químicas ou físicas pelas quais ela passe, ao fim do processo sua massa total sempre será conservada.

O que significa dizer que, salvo pela chegada de “água do espaço sideral” em meteoros/meteoritos – algo que é muito raro e insignificante em termos de volume, ao menos na nossa época –, a quantidade da substância é a mesma há muitos milhões de anos. E ela apenas vai se transformando em um eterno ciclo de “sólido, líquido e gasoso”.

🌊 Transformações complicadas

Diante disso, não haveria por que se preocupar, certo? Errado! Porque, se nós não temos a capacidade de “fazer desaparecer” a massa total de água do planeta, reunimos todas as condições – e fazemos isso constantemente – de transformá-la. Não apenas dentro de seus estados físicos, mas também por meio da poluição e de alterações no relevo terrestre (com a construção de represas e o desmatamento, por exemplo).

Essas mudanças comprometem a qualidade da água para todas as formas de vida, e podem demandar esforços gigantescos – muitas vezes, inviáveis – de recuperação ou recomposição. Em síntese: dispomos de toda a água do mundo, mas não estamos sabendo como cuidar dela. E os resultados são preocupantes!

 

🌧️ Algumas informações interessantes

Você já ouviu falar em “superfície terrestre”, certo? Ela é aquela camada do nosso planeta, aquela “capa” – apesar de enorme, muito fina na comparação com o diâmetro do planeta – onde a vida acontece. Ela é formada pela litosfera (camada sólida), pela hidrosfera (oceanos, mares, lagos, rios e reservatórios subterrâneos) e pela atmosfera (a camada gasosa).

E é justamente nela que está toda a água; aliás, cerca de 71% da superfície terrestre é coberta por água. Nesse ambiente ela circula sem parar, seguindo o chamado “ciclo da água” – circulação em estado líquido, evaporação, congelamento, retorno em forma de chuva e assim por diante. E pode até acabar “estocada”, na forma líquida, em lençóis subterrâneos e reservatórios conhecidos como aquíferos, que são tremendamente importantes para a regulagem dos próprios rios; e em geleiras, situadas nas zonas mais altas do planeta e, também, próximo dos polos.

Detalhe crucial: como os seres vivos são formados e dependem totalmente da água, é possível afirmar, sem errar, que eles entram no mesmo ciclo: nós, por exemplo, bebemos água, consumimos alimentos, vamos ao banheiro, respiramos, transpiramos… ou seja, também estamos “trocando água” com o mundo o tempo todo!

A quantidade de água, como observamos, é grande – algo como 1,386 bilhão de quilômetros cúbicos (se colocássemos toda ela em uma esfera, esta teria um pouco menos da metade do tamanho da Lua!). O que não significa dizer que estamos com a “caixa cheia”! Isso porque 97,3% dela é salgada; 77,2% está congelada (doce ou salgada, em montanhas, icebergs e banquisas); 22,4% está guardada sob a terra, em lençóis e aquíferos; e apenas 2,7% é doce. Só que nem toda a água doce é potável – ou seja, própria para o consumo humano.

Quanto ao uso da água pelas sociedades, em uma média ele está dividido da seguinte maneira: 70% na agricultura e pecuária, 20% na indústria (em processos de fabricação, resfriamento, produção de energia e limpeza) e 10% no uso doméstico (alimentação, limpeza, sistemas de esgoto etc.). Vale observar que esses percentuais variam entre os países – o Brasil, por exemplo, utiliza mais água no setor agropecuário do que outros países.

Vale observar que todos esses usos são humanos e se situam dentro de um universo muito mais complexo, que compreende os demais componentes da biosfera. O que significa dizer que, além de “nos atender”, a água também deve nutrir todos os demais seres vivos dentro de um sistema repleto de variáveis (como, por exemplo, as estações do ano).

🚱 “Ah, mas se faltar a gente dá um jeito…”

Depende! Se, por um lado, em tese é possível recuperar e potabilizar águas contaminadas, salobras, salgadas ou “escondidas” – e há uma corrida tecnológica em busca de meios mais interessantes para isso –, por outro lado estes processos todos são, sempre, muito caros.

Para ter acesso a uma fonte de água subterrânea, por exemplo, é preciso cavar um poço, que pode ser muito profundo; muitas vezes, a água dos poços precisa ser tratada, resfriada e até desmineralizada para, então, estar disponível para o consumo.

E há um outro fator muito importante: o tempo. Há um antigo ditado chinês que afirma que “uma pessoa não deve começar a cavar um poço quando já está com sede”; esta regra parece funcionar perfeitamente para a questão de que estamos tratando. Visto em termos muito gerais, o mundo ainda não está “com sede” – ela, porém, já afeta muitas pessoas e causa muitas mortes.

Dados da ONU (2023) mostram que cerca de 2 bilhões de pessoas (26% da população global) não têm acesso a água potável segura; destas, cerca de 1,7 bilhão utiliza fontes contaminadas por fezes ou produtos químicos; e cerca de 4 bilhões de pessoas (quase metade da população mundial) enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano.

A maior parte das pessoas afetadas vive nos países mais pobres, que não possuem meios de solucionar a questão. À medida, porém, que a emergência climática se acelera, esse número vai crescer e chegar, também, aos países mais fortes economicamente. Há, inclusive, quem afirme que já estamos em uma etapa de “guerras da água”, quando países lutarão pelo controle e pelo uso deste recurso. Nesse sentido, o futuro não é nada promissor…

🛡️ Então, como fazer?

Promissor, mesmo, é investir em caminhos sustentáveis para o uso e a conservação das águas disponíveis. Ao invés de explorar aquíferos, proteger as nascentes e os rios; ao invés de dessalinizar a água do mar, proteger as florestas e recompor o meio ambiente em regiões degradadas para “plantar água” (regulando os lençóis e protegendo os rios do assoreamento). Ao invés de consumir alimentos e produtos cuja produção implica um gasto extremo de água, olhar com cuidado para os próprios hábitos em busca de equilíbrio.

Pausa para um exemplo: a produção de 1 kg de carne bovina envolve, em média, o consumo de 15 mil litros de água (os dados são do Water Footprint Network e do Instituto Akatu); tomando como referência o valor recomendado pela ONU de consumo de água por pessoa/dia, que é de 110 litros, chegamos à conclusão de que o volume de água investido na produção de 1 kg de carne poderia suprir as necessidades diárias de uma pessoa por mais de 4 meses!

Não estamos falando, evidentemente, em eliminar o consumo de carne bovina, que é um hábito nutricional, cultural e de saúde de bilhões de pessoas em todo o mundo; o importante, aqui, é refletir sobre os hábitos e a responsabilidade em relação aos impactos do consumo.

🚰 Dia Mundial da Água

Essa, aliás, é uma ideia central do Dia Internacional da Água, proposto pela Organização das Nações Unidas em 1992. A data, que é comemorada no dia 22 de março, funciona como um mobilizador de pessoas, empresas e sociedade para conhecer os problemas da água, conscientizar sobre o uso consciente de um recurso que é precioso e escasso.

Na medida em que esse é um processo civilizatório – ou seja, ele implica uma mudança de hábitos e de olhar de longa duração, que envolve toda uma comunidade –, ele deve, necessariamente, envolver a educação e a escola, já na Educação Básica. E é aí que entra em cena a Educação Ambiental, prevista, no caso brasileiro, de forma transversal (pela BNCC). E que, evidentemente, pode ser trabalhada de muitas maneiras, integrando colocações mais teóricas – como a que diz respeito, por exemplo, à compreensão esquemática do ciclo da água – e metodologias ativas que trabalhem com observação de campo, ação e protagonismo dos estudantes.

É possível, por exemplo, envolver os estudantes no conhecimento dos rios da cidade/bairro onde eles moram, do papel das águas para o desenvolvimento da civilização naquele local e a forma como estes cursos estão sendo tratados na atualidade. Perguntas como “Onde está o rio que passava ali?” ou “Quais são e onde ficam os rios do seu bairro?” podem dar início a belos projetos de pesquisa com impacto na comunidade.

É possível envolver os estudantes na compreensão dos custos de tratamento do esgoto em uma visita às estações e estruturas associadas. É possível, enfim, fazer com que eles percebam a relação entre água e os hábitos de consumo de diferentes maneiras. E levá-los a conhecer os caminhos para a conservação e o uso racional e sustentável.

Essa lista de possibilidades, evidentemente, é muito maior, e pode levar em conta os muitos cenários onde as escolas e as comunidades estão inseridas. O essencial, em todos os casos, é o letramento das novas gerações para uma questão fundamental.

💦 Quero encontrar mais fontes:

Legal! Vamos listar alguns links importantes para o trabalho sobre a temática da água na escola:

Organização das Nações Unidas (ONU) – Água (UN Water): Portal que mostra o trabalho da ONU em relação à água e ao saneamento. Traz notícias, relatórios e infográficos. Disponivel em português.

UNESCO – Programa Hidrológico Internacional (PHI): A UNESCO promove pesquisas e educação sobre gestão sustentável da água. O Programa Hidrológico Internacional (PHI) é uma referência global em estudos sobre recursos hídricos. Em inglês e espanhol.

Water Footprint Network (Rede de Pegada Hídrica): Esta organização internacional calcula a “pegada hídrica” de produtos, países e indivíduos, mostrando o consumo de água em diferentes atividades. Em inglês.

Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA): O portal da agência reguladora de recursos hídricos no Brasil traz notícias e materiais educacionais interessantes. Em português.

Portal Trata Brasil: O portal do Instituto Trata Brasil traz informações relevantes e materiais educativos sobre o saneamento básico no país. Em português.

Há, também, espaços físicos dedicados à educação para a água. Destacamos o Museu Planeta Água, mantido pela Companhia de Saneamento Básico do Paraná, a Sanepar, em Curitiba, e o Museu Água, mantido em São Paulo pela Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESABESP).

“De outros carnavais”: a origem da maior festa brasileira!

O Carnaval é a grande festa brasileira. Ela, porém, é bem mais antiga que o próprio Brasil!

Todos os anos, para a alegria de muita gente (e até para o desgosto de quem não gosta da festa), tem Carnaval: é tempo de bloco na rua, fantasia, samba enredo, confete, escola de samba, pandeiro, cuíca, maracatu, brincadeira, marchinha, trio elétrico, ala das baianas, abadá e muita dança. No caso do Brasil, é tempo de colocar na rua toda a alegria e toda a criatividade que fazem nosso povo conhecido em todo o mundo.

E é interessante: há poucas festas no mundo que, apesar de repetir um padrão, se renovam tanto. Todo ano tem Carnaval e, mesmo assim, cada Carnaval é único. Uma festa extraordinária!

A “jovialidade” do Carnaval faz até com que a gente se esqueça que a festa é muito antiga. Mas, você sabe quando começou o Carnaval?

“A Luta entre o Carnaval e a Quaresma”, pintura de 1559 do artista neerlandês Pieter Bruegel.

Uma festa católica e romana

Antes de chegar à origem histórica do Carnaval, é interessante a gente saber o motivo da festa. Por que, afinal, isso de “carnaval”, uma festa que aposta na alegria, na desinibição e até na inversão dos elementos conhecidos? O que a “carne”, que aparentemente aparece no nome da festa, tem a ver com o reco-reco e o pandeiro? Vamos descobrir!

O Carnaval é uma celebração originalmente católica, diretamente relacionada à Quaresma, o intervalo de 40 dias que antecede a Páscoa estabelecido pela Igreja. Nesse período, em respeito ao suplício e à ressurreição de Jesus – o elemento mais importante do mistério cristão –, os fiéis se abstinham de consumir carne.

Aliás, o termo “carnaval” vem daí: da expressão latina “carnis levale” ou “carnem levare”, que significa, literalmente, “tirar a carne”. E também trocar outros hábitos “mundanos” por reflexões, orações e presença mais assídua à missa.

Então, antes que chegasse esse período de apaziguamento, as pessoas faziam uma despedida “em grande estilo” dos velhos hábitos. Com dança, comida, bebida e brincadeiras.

A civilização e os festivais romanos, como a Saturnália, são uma grande inspiração do Carnaval.

Mas, quando começou?

Localizado o contexto, podemos buscar o início da festa. Os primeiros movimentos no sentido de se guardar um período antes da Páscoa datam do século 2 d.C. e vêm de Roma. Ou seja: se a Quaresma nasceu nesse contexto, é bem possível que o Carnaval tenha surgido na mesma época. E a coisa foi se organizando – tanto para a Quaresma quanto para o Carnaval. Na Idade Média, ambos os momentos já estavam mais do que consolidados. E chegaram ao Brasil no século XVI com o catolicismo português.

Vale observar que, se o Carnaval como data associada à religião nasce nos primeiros séculos da Era Cristã, seus componentes – festa, dança, música, comilança e brincadeiras – são ainda mais antigos.

Os bonecos gigantes de Olinda são uma atração à parte no Carnaval do Nordeste!

Em Roma, como os romanos

Algumas linhas acima, localizamos a origem da festa entre os cristãos primitivos de Roma, capital de um Império muito poderoso cujo calendário religioso estava repleto de celebrações. Havia muitas religiões e divindades “disponíveis” – além de seus próprios deuses, os romanos podiam venerar livremente e participar de rituais e festas. E eles, por sua vez, podiam ser generosos em termos do que chamaríamos de “excessos”, em especial quando associadas a deuses como Baco (Dionísio, para os gregos), relacionado ao vinho, à festa, ao teatro e ao êxtase.

Ao chegar em Roma e fazer seguidores entre os moradores da cidade, o Cristianismo incorporou hábitos e condutas locais, que se somaram para formar a grande festa do início do ano.

Brasil: um Carnaval ainda mais rico

No Brasil, ao longo de mais de 500 anos, a festa ganhou uma quantidade enorme de elementos culturais, significados e formatos em diferentes regiões do país. Começando por um distanciamento em relação à religião. Hoje em dia, muita gente já não vê e nem sabe que existe uma ligação entre o Carnaval e a Quaresma. Tanto, que estamos falando a respeito neste artigo!

O contato dos portugueses com os povos originários indígenas e com os povos oriundos de diferentes partes da África no período da escravidão somou ao Carnaval brasileiro características únicas. Se a celebração cristã europeia incorporava elementos pré-cristãos, a celebração brasileira somou os elementos europeus aos de outras culturas antigas e ricas – e isto aparece nos temas, roupas, instrumentos e estilos musicais. O Carnaval brasileiro tem muitas referências, do Amazonas a Veneza, do Egito ao Japão!

“Marimba. Passeio de domingo à tarde”. Aquarela de Jean-Baptiste Debret, de 1826. Observe os instrumentos musicais e as roupas dos participantes, que são negros brasileiros.

Um mundo de instrumentos

Pense apenas, por exemplo, nos instrumentos de percussão que constroem a sonoridade carnavalesca das nossas avenidas e ladeiras. Lá estão, entre outros instrumentos, o surdo (um grande bumbo de marcação, universal), o pandeiro (português), a cuíca (bantu/africano), a caixa (europeia), o agogô (iorubá/africano) e daí por diante. Aliás, convidamos você a descobrir a origem de outros instrumentos – segue a lista: tamborim, repinique, agogô, reco-reco, chocalho, ganzá, repique de mão, alfaia, timbal, xequerê e triângulo. Você vai se surpreender!

Você conhece o agogô? É um instrumento de Carnaval que nasceu com o povo Yourubá, na Nigéria, e veio ao Brasil com os povos escravizados.

O Carnaval no Brasil moderno

Seguindo daqui: a festa foi se organizando, se conformando, até chegar aos séculos 19 e 20. Em um Brasil independente e cada vez mais urbano, com acesso a novas tecnologias comunicacionais – o rádio, o disco, a tevê –, o carnaval cresceu e os sambistas começaram a ter mais reconhecimento.

Muitos deles, mulheres e homens negros oriundos de comunidades carentes economicamente. Outros, vindos de uma classe média urbana. Uma lista que inclui nomes como Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Alcione, Paulinho da Viola, Candeia, Batatinha, Beth Carvalho, Adoniram Barbosa, Martinho da Vila, Nelson Sargento, Clementina de Jesus, Jamelão, Elza Soares, Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara e muitos outros!

A valorização do samba e dos demais ritmos carnavalescos (como o coco, o frevo, o maracatu e o carimbó) não foi, evidentemente, um processo simples ou pacífico – ela foi possível, na verdade, graças ao enorme valor cultural envolvido. Por muito tempo, especialmente as manifestações associadas às raízes não europeias foram vistas com suspeição e preconceito. Aos poucos, porém, esse preconceito vem sendo superado.

O artista francês Jean Baptiste Debret registrou muitas festas e folguedos no Brasil. Como esses “Meninos brincando de Soldados”, de 1827.

Um Brasil de muitos carnavais

Se você fechasse os olhos e pensasse no Carnaval brasileiro, que imagem viria à sua cabeça? A das escolas de samba do Rio e de São Paulo? Das ruas de Salvador? Do frevo das ladeiras de Olinda e Recife? Dos maracatus de Pernambuco? Dos blocos do Rio e de muitas capitais brasileiras? Do boi-bumbá do Norte e Nordeste? Dos desfiles de fantasia? Qualquer uma delas é perfeita! Isso porque o Carnaval brasileiro é multifacetado – são muitos carnavais, com atrações para todos os gostos, até mesmo para pessoas de outros países!

No século 21, em nosso tempo, o Carnaval brasileiro é uma festa de alcance internacional. Com a chegada de tecnologias digitais ainda mais poderosas – e um investimento pesado de empresas e do poder público –, propaga suas músicas, artistas e modas com uma velocidade impressionante.

Ao mesmo tempo, porém, em especial na área rural e em comunidades mais afastadas e/ou mais tradicionais, cultiva antigas danças, ritmos e fantasias. Em síntese: é um Carnaval poderoso, que pode ser visto, lido e curtido em diferentes formatos.

Assim, esquente o seu pandeiro (ou não!) e bom Carnaval!

O bloco e o trio elétrico – criações do Carnaval brasileiro!

Para ir mais longe – sites que trazem conteúdos históricos e educativos sobre o Carnaval

Enciclopédia Itaú Cultural

Museu Afro Brasil

O Frevo e sua História – Google Arts & Culture

Museu do Samba (RJ)

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

Para redescobrir a Matemática na Educação: desafios e caminhos

Inteligência artificial, viagens espaciais, Física, Química, Engenharias, Biotecnologia… todas estas áreas estão “bombando” em 2025 e seguirão assim. E todas elas compartilham um elemento: o uso extensivo da Matemática, em cálculos, algoritmos, medidas, projeções e mais. O que significa que o domínio desse componente curricular é, mais do que nunca, estratégico. Para os países, ele representa desenvolvimento e poder; para as pessoas, possibilidades de crescimento profissional e pessoal.

✔️ DESAFIO EM TEMPO DE DECLÍNIO DA APRENDIZAGEM

E aqui está o paradoxo: embora a Matemática tenha sido essencial ao longo de toda a História, seu domínio se torna cada vez mais crucial no mundo moderno. No entanto, observa-se um declínio global na aprendizagem do conteúdo curricular, inclusive em países que por muito tempo se destacaram como líderes globais em educação, como a Finlândia. Isso indica que os estudantes de hoje dominam menos conceitos matemáticos do que as gerações anteriores.

Avaliações internacionais como o PISA (Programme for International Student Assessment), promovido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e o TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study), da IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement), mostraram que, salvo no caso de alguns países da Ásia, houve uma queda significativa no nível de acerto dos estudantes, o que indica uma aprendizagem deficiente.

✔️ E O BRASIL NESSA HISTÓRIA?

No caso específico dos estudantes brasileiros que participaram da última edição do PISA, em 2022 (a próxima edição acontece neste ano), apenas 27% (pouco mais de um a cada quatro) alcançaram o nível 2 de proficiência, considerado adequado – nele, a pessoa tem capacidade de usar conceitos de Matemática no dia a dia. A média dos países da OCDE, nesse nível, chegou a 69%.

No caso dos níveis 5 e 6 de proficiência – considerados os mais altos de domínio do conhecimento –, apenas 1% dos estudantes brasileiros chegou lá; a média dos países da OCDE foi de 9%.

✔️O QUE ESTARIA PROVOCANDO ESSA RETRAÇÃO NA APRENDIZAGEM DA MATEMÁTICA?

Não há uma resposta fechada. Há, sim, a percepção de elementos que podem ajudar professores e gestores em relação aos objetivos que pretendem alcançar e, também, às habilidades e competências que devem ser desenvolvidas, nos estudantes e nos docentes, para a melhoria da aprendizagem da Matemática na prática.

✔️ VAMOS DESTACAR ALGUNS DELES

📌 A pandemia da Covid-19 provocou um impacto duradouro na Educação Básica, enfraquecendo a aprendizagem de muitos estudantes, prejudicando o ensino presencial e reforçando as desigualdades educacionais em todos os países. Esse impacto pode e deve ser percebido por meio de avaliações diagnósticas da aprendizagem e revertido a partir da aplicação de planos de intervenção que foquem as lacunas de aprendizagem e atuem individualmente, estudante a estudante.

📌 Em muitos países – entre eles, o Brasil – há falhas na formação dos docentes de Matemática. O “remédio” essencial para essa situação é investir de forma permanente em formação continuada, com recursos que valorizem o entendimento do componente curricular dentro da realidade vivida, invistam no interesse e na criatividade dos professores e lhes forneçam meios para planejar e desenvolver aulas que animem, aproximem, engajem e atraiam os estudantes – e que tenham como resultado a aprendizagem verdadeira.

📌 No caso brasileiro, o fortalecimento da formação docente passa, também, por buscar caminhos para estimular os estudantes das licenciaturas em Matemática. Apenas para se ter uma ideia, a licenciatura em Matemática é a segunda com maior percentual de desistências no país – 68% dos estudantes abandonam a graduação –, ficando atrás, apenas, da graduação/licenciatura em Física (72%). Isso implica uma carência crítica de professores graduados em Matemática nas redes de ensino. Ainda que esses docentes não sejam os únicos autorizados a dar aulas de Matemática na Educação Básica, eles podem colaborar muito, também em relação ao aporte de recursos de ensino nos próprios contextos formativos.

📌 O ensino da Matemática deve ser modernizado, com metodologias e recursos que caminhem no sentido do protagonismo do estudante e da aplicabilidade. Alguns exemplos interessantes: metodologias ativas, aprendizagem baseada em problemas, aprendizagem por projetos e gamificação. Isso não significa enfraquecer os currículos (muito pelo contrário!), mas fortalecer o ensino – começando pela Matemática básica, que é essencial – a partir de exemplos práticos e aplicações.

📌 As recentes limitações ao uso de tecnologias digitais em sala de aula no Brasil, estabelecidas pela Lei 15.100/2025, trouxeram desafios aos professores e aos gestores; desafios que também se relacionam ao ensino e aprendizagem da Matemática. Afinal, elas gerariam uma oportunidade para a promoção de outros recursos que estimulem o raciocínio matemático básico?

Aqui, é interessante fazer uma análise mais crítica do momento e da lei. Ela não veio para “banir” a tecnologia – algo que seria improdutivo e impossível –, mas para regular seu uso a partir de critérios de intencionalidade pedagógica e papel na aprendizagem. Isso, aliás, está na letra da lei:

“Art. 2º – Fica proibido o uso, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais durante a aula, o recreio ou intervalos entre as aulas, para todas as etapas da educação básica.

§ 1º – Em sala de aula, o uso de aparelhos eletrônicos é permitido para fins estritamente pedagógicos ou didáticos, conforme orientação dos profissionais de educação”.

Ou seja: o poder pedagógico das tecnologias digitais está mantido e é até realçado, inclusive em relação à Matemática. Falando sobre esse componente curricular, autores como Ferreira, Campos e Wodewotzki (2013, p. 162) observam que a tecnologia deve ser vista “como parte de uma estratégia colaboradora na medida em que, graças à implementação de algoritmos, viabiliza o trabalho com problemas diversos que envolvem diferentes níveis de complexidade algébrica e grande quantidade de dados”.

Eles também destacam o papel da tecnologia na facilitação do contato com os elementos que compõem a Matemática, uma vez que ela permite a visualização de imagens e pode converter conceitos e ideias abstratas em tarefas, desafios e jogos que engajam e geram sentido. O lúdico, aqui, cumpre um papel muito importante. Além de ser um objeto sociocultural em que a Matemática está presente, o jogo é uma atividade natural no desenvolvimento dos processos psicológicos básicos; supõe um “fazer sem obrigação externa e imposta”, embora demande exigências, normas e controle (Brasil, 1998, p. 47).

O que significa que propostas tecnológicas – e também analógicas, com o resgate de formas tradicionais (desde que não “engessadas” ou desprovidas de sentido para quem aprende) – são primordiais para o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático.

Portanto, não é o “limitar” do uso da tecnologia que contribui para esse desenvolvimento, mas a intencionalidade em cada proposta diversificada, que é desenhada a partir de uma avaliação diagnóstica clara e precisa e de um planejamento que (re)dimensione as práticas pedagógicas.

📌 O olhar dos professores e dos gestores para eventos que promovem o interesse e o engajamento em relação à Matemática – como a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) e a Olímpiada Brasileira de Matemática (OBM) – também é algo muito interessante. Eventos como esses possuem a capacidade de, ao mesmo tempo, valorizar a área do conhecimento, promover os estudantes individualmente, fortalecer os laços do grupo e elevar o nome da instituição ou rede de ensino.

📌 E os sistemas de ensino? O papel dos sistemas de ensino – como o da Editora Opet – é fundamental para fortalecer o aprendizado da Matemática. Começando pela oferta de materiais didáticos – as coleções e suas expansões em objetos digitais educacionais (ODEs) –, passando pela metodologia de ensino moderna, pelo apoio à formação continuada dos professores (com recursos que os estimulam e inspiram) e pela avaliação diagnóstica precisa e de alta qualidade na Educação Básica.

No caso das coleções da Editora Opet, elas oferecem – por exemplo – jogos matemáticos que trazem o lúdico à aprendizagem, situando os estudantes no centro deste processo, como protagonistas.

✔️ PARA IR MAIS LONGE

Conheça as coleções da Editora Opet para a Educação Básica

Conheça o Programa inDICA de Gestão da Educação

REFERÊNCIAS:

BRASIL. MEC. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares NacionaisMatemática. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CAMPOS, C. R.; JACOBINI, O. R.; WODEWOTZKI, M. L. L.; FERREIRA, D. H. L. Educação estatística no contexto da Educação crítica. Revista Bolema, v. 24, nº 39, p. 473- 494, ago. 2011.

A “bússola” de 1891: o Brasil e sua primeira Constituição republicana

Assinatura da Constituição de 1891″, pintura de Eliseu Visconti.
Fonte: Wikipedia

Palácio do Conde dos Arcos, cidade do Rio de Janeiro, 24 de fevereiro de 1891. Naquele dia úmido e abafado, típico de verão na antiga capital da jovem República, um grupo de cerca de 225 parlamentares e autoridades convidadas promulgava a primeira Constituição republicana brasileira. Esse documento, elaborado pelo Congresso Constituinte, havia sido previsto no decreto que instituiu o Governo Provisório da República, logo após a deposição da monarquia em 15 de novembro de 1889.

O novo Brasil passava a contar, enfim, com uma nova “bússola” legal, cujas consequências seriam percebidas até hoje.

Constituição, uma superlei

Antes de seguir em frente, é interessante observar a importância da Constituição. Também chamada de Carta Magna, ela é a lei máxima de um país, da qual partem todas as demais leis e documentos legais, que são infraconstitucionais (ou seja, eles se situam em uma posição inferior em termos de poder legal). As leis devem seguir exatamente os preceitos constitucionais, sob pena de nulidade. A abrangência do poder constitucional explica plenamente a importância dos princípios e fundamentos da Constituição. E a importância de que eles sejam estudados e discutidos de forma democrática.

Quando tudo começou: um Raio-X da Constituição de 1891

A primeira Constituição republicana foi a segunda da história brasileira (a primeira, sob Dom Pedro I, havia sido outorgada em 1824). Ao todo, o país teve sete Constituições – entre democráticas e ditatoriais –, sendo a mais recente a de 1988, que atualmente rege o nosso país.

Mas, por que a Constituição Federal de 1891 – com seus 91 artigos, acrescidos de outros 8 nas Disposições Transitórias – é tão importante, a despeito de ter tido uma existência relativamente breve, de apenas 43 anos?

O documento delineou vários dos princípios que, desde o início da República, norteiam o Estado e a sociedade brasileiros. Vamos conhecê-los:

. A instituição do federalismo, pela “por união perpétua e indissolúvel das suas antigas províncias, em Estados Unidos do Brasil”.

. A forma de governo, republicana e presidencialista.

. A divisão do Poder Legislativo em duas casas, a Câmara dos Deputados e o Senado.

. O estabelecimento do voto direto para a eleição dos deputados federais e dos senadores.

. As incumbências de ambas as casas no desenvolvimento e votação de projetos de lei, incluído o do orçamento da república.

. As figuras do presidente e do vice-presidente da república, suas atribuições, mandato e forma de eleição pelo voto direto e majoritário.

. As atribuições do Poder Executivo.

. A estrutura do Poder Judiciário, inclusive com a instituição e atribuições do Supremo Tribunal Federal (STF).

. A organização e constituição das Forças Armadas.

. O status de cidadão brasileiro a todos os nascidos em território nacional (jus solium).

. A igualdade entre todos os cidadãos brasileiros, a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, segurança individual e propriedade.

. A laicidade do Estado e a liberdade religiosa dos cidadãos – aqui, temos um contraste com a situação do período imperial, em que o catolicismo era a religião oficial do Estado (em seu Art. 5º, a Constituição de 1824 determinava que “a Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior do Templo”).

. A abolição da pena de morte.

Igreja Evangélica Luterana de Domingos Martins, ES. Construída em 1887, é é o mais antigo templo protestante ornado com torre no Brasil.

Brasília à vista!

Uma curiosidade que demonstra o olhar estratégico dos legisladores da Constituição de 1891: a Carta destinava uma área de 14.400 km², a ser demarcada no chamado “Planalto Central”, para o estabelecimento da futura capital federal. O que, de fato, viria a acontecer 69 anos depois, com a inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960.

Projeto do plano piloto de Brasília. (Imagem: Arquivo Público do DF)

Uma herança essencial

As Constituições brasileiras que se seguiram (1934, 1937, 1946, 1964 e 1988) herdaram vários desses princípios. A Carta Magna de 1988, construída e promulgada no contexto de retorno da democracia ao país (em 1985, com a instalação da “Nova República” tendo José Sarney como presidente), especialmente, consagrou e ampliou os princípios, direitos e garantias ligados à cidadania. Dentre eles estão, por exemplo, o direito à saúde e à educação públicas gratuitas, universais e de qualidade – uma obrigação do Estado.

Para ir mais longe

Confira, nos links abaixo, artigos que ampliam o seu conhecimento sobre a Constituição Brasileira de 1891 e além:

Portal da Câmara dos Deputados, Constituição de 1891 (texto original)

Senado Federal – Constituição 30 anos: As Constituições Brasileiras de 1824 a 1988

Fundação Getúlio Vargas (FGV) – Atlas Histórico do Brasil – “Constituição de 1891”

Arquivo Nacional (NA) – Constituição de 1891

Agência Brasil – Confira dez curiosidades sobre a Constituição Republicana de 1891

FuturoPresente #03: nosso próximo passo… no espaço sideral!

Terra e Lua vistas da órbita lunar, em imagem tomada do módulo da Missão Artemis I, da NASA. Foto: NASA.

A relação entre a humanidade e o céu é muito antiga. Desde o início da civilização, olhamos para o alto e ficamos encantados! Essa relação com o céu gerou mitos, poesias e divindades! A uma certa altura, criamos obras literárias que nos levavam até lá! Se você pensou em Júlio Verne (foto) e em “Viagem à Lua”, é isso mesmo! E o autor francês é apenas um entre milhares de escritores da ficção científica “espacial”, de Isaac Asimov a Ray Bradbury.

Julio Verne (1828-1905)

Daí, no século XX, veio a ciência e, com base em tecnologias desenvolvidas durante a Segunda Guerra Mundial (foguetes, materiais, combustíveis, radar, técnicas de gestão de projetos), levou mesmo pessoas ao espaço. Primeiro, chegamos à nossa própria órbita, com o cosmonauta russo/soviético Iuri Gagarin, em 1961, a bordo da espaçonave Vostok (ele subiu a uma altura de cerca de 300 km); depois, em 1968, à Lua, com Buzz Aldrin e Neil Armstrong, tendo como piloto do módulo orbital Michael Collins, na Missão Apollo 11 (distância total percorrida: aproximadamente 800 mil km!).

A última “pisada fora da Terra” aconteceu em 1972, na Missão Apollo 17, com os astronautas Eugene Cernan, Ronald Evans (piloto do módulo orbital) e Harrison Schmitt. Depois disso, muitas missões foram enviadas ao espaço e muita coisa aconteceu (dos ônibus espaciais à estação espacial internacional, para ficar em dois exemplos), mas nunca mais “saímos em pessoa” dos limites da órbita terrestre. Nesse período, as tecnologias avançaram enormemente, o que aumenta as possibilidades de “colocar o pé no universo” com sucesso. Dito isso, a expectativa é gigantesca!

🚀🌝 Mas, qual será o próximo corpo celeste a ser alcançado por pés humanos?

Será a Lua, para onde, em princípio, devemos retornar com a Missão Artemis, da NASA. Em 2025, ela deve enviar astronautas para um voo tripulado ao redor da Lua; e, em 2026, eles devem pisar no Polo Sul do satélite.

A volta à Lua faz parte de um plano ainda mais ambicioso: levar astronautas até Marte, o que pode acontecer em 2040 – este ano é uma estimativa, mas é bem possível que o voo aconteça, mesmo por esta época. Já pensou? Com todos os recursos comunicacionais que então teremos, será sensacional!

A tripulação da Missão Artemis 2, que deve marcar a volta dos astronautas à Lua. Da esquerda para a direita, os astronautas Christina Koch, Victor Glover e Reid Wiseman (NASA), e Jeremy Hansen (da Agência Espacial Canadense). Foto: Josh Valcarcel/NASA.

#ESPECIAL: Do espaço sideral ao quarto de dormir: como a Corrida Espacial transformou nossas vidas!”

🌌Uma nova Corrida Espacial

A agência espacial dos Estados Unidos não é a única a sonhar com essas missões. Elas estão nos radares de outras agências espaciais nacionais, da China, Rússia, Japão, Índia e da Comunidade Europeia. Sem contar os planos de empresas privadas, como a SpaceX e a Blue Origin, que já estão realizando façanhas incríveis no espaço, com voos que envolvem, por exemplo, naves que podem voar várias missões e até “pousar de ré” – fantástico!

E há, também, projetos desenvolvidos de forma colaborativa entre países, entre os quais o Brasil, que também possui um programa espacial bastante avançado.

Centro Espacial Satish Dhawan, em Andra Pradesh, Índia. No destaque, o lançador de satélites geossíncronos. Foto: Agência Espacial Indiana.

📡👩🏿‍🚀Mas, por que explorar o espaço?

Starship, nave espacial “retornável” desenvolvida pela empresa Space-X.

Como observamos no início deste artigo, explorar o espaço faz parte de um sonho muito antigo da humanidade. Faz parte da eterna curiosidade humana! Mas, também envolve fatores políticos (a “Corrida Espacial” travada por Estados Unidos e URSS é um bom exemplo destes fatores), interesses econômicos (como o de explorar matérias-primas e processos industriais no espaço) e científicos (a busca pelo conhecimento puro, pela origem do universo, por formas de vida, por novos materiais e medicamentos, entre outros). E, sem dúvida, a possibilidade de colonização de outros corpos celestes, como planetas e satélites.

Há, evidentemente, enormes desafios, começando pela obtenção de recursos financeiros para bancar as missões. E também os de produzir tecnologias que permitam a saída das naves da Terra com maior eficiência e menor custo, o desenvolvimento de formas mais avançadas de sustentação da vida humana em outros ambientes, a criação de materiais mais resistentes às longas jornadas etc.

Em uma outra vertente, a da Física, busca-se formas de superar as brutais distâncias espaciais, que, hoje, tornam viagens mais longas simplesmente impossíveis (um exemplo: viajando à velocidade da luz, que é de 300 mil km/s, levaríamos 105,7 mil anos para cruzar apenas a extensão da nossa galáxia, a Via Láctea). As tecnologias de propulsão baseadas na física newtoniana (como foguetes químicos), atualmente disponíveis, são muito lentas para alcançar planetas distantes em prazos razoáveis. Viagens para além de Marte já enfrentam desafios de tempo considerável, e alcançar sistemas estelares próximos levaria milhares de anos com os meios atuais.

E há que considerar, também, as muitas questões legais e éticas associadas à exploração de outros mundos: novos mundos pertenceriam a quem? E se encontramos formas de vida extraterrestre, como proceder? 👾

Sonhos e realizações que só são possíveis graças à ciência, que nasce na educação! E essa é a “vibe” da série #FuturoPresente, da Editora Opet!

Referências para você ir mais longe:

1. Projeto Artemis (NASA)

2. Agência Espacial Europeia (ESA)

3. Agência Espacial Brasileira (AEB)

4. Agência Espacial Indiana (ISRO)

5. Agência Espacial Chinesa (CNSA)

6. Agência Espacial Japonesa (JAXA)

7. SpaceX

8. Blue Origin

9. Missão Apollo (NASA)