Turma de gestores da SME de Xaxim, Santa Catarina, na formação pedagógica desta semana.
O trabalho pedagógico e de aproximação com a comunidade não para: nas últimas semanas, o time pedagógico da Editora Opet esteve em campo para mais uma série de encontros com professores, gestores e familiares de estudantes dos municípios parceiros. Como os que aconteceram em Caxambu, no sul de Minas Gerais, Santa Mariana, no norte pioneiro do Paraná, e Xaxim, no oeste de Santa Catarina.
São ações formativas estratégicas, planejadas com cuidado pela Editora e que permitem o fortalecimento do trabalho docente e de gestão para a construção conjunta do conhecimento, a aprendizagem e o desenvolvimento socioemocional dos estudantes. São ações, também, de aproximação em relação às famílias pelo desenvolvimento da educação.
Caxambu (MG): Receptividade e Participação
Em Caxambu (MG), o encontro aconteceu nos dias 30 e 31 e envolveu cerca de 50 professores da Educação Infantil 5 e do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental. O foco foi dado às coleções “Entrelinhas para Você” (Educação Infantil) e “Caminhos e Vivências”, utilizadas pela rede municipal de ensino.
“Ficamos muito felizes com a formação. Os professores de Caxambu são, sempre, muito receptivos à nossa equipe. Eles são participativos e afetuosos”, conta a supervisora regional Jessica Soares, responsável pela formação na Editora Opet.
As professoras Thaianny Diniz Nogueira, chefe de Central da Educação Infantil, e Mayara Resende da Silva, chefe de Central do Ensino Fundamental da secretaria municipal de Educação de Caxambu, coordenaram o trabalho formativo pelo município.
“Os encontros foram de extrema importância, especialmente por marcar o ano de implantação do sistema no município”, explica Thaianny. “Com a formação, os professores tiveram a oportunidade de trocar experiências, esclarecer dúvidas e participar de oficinas enriquecedoras.”
Ela observa que momentos assim são fundamentais para um trabalho de excelência, que amplia a experiência e o suporte aos docentes, contribuindo significativamente para a melhoria da qualidade do ensino oferecido aos alunos.
Sobre a experiência com a Editora Opet, as coordenadoras observam que ela tem sido muito satisfatória. E destacam a disponibilidade da equipe de formadores, que apoia e contribui para a educação municipal. “Os materiais e recursos contribuem para o processo de ensino e aprendizagem dos alunos, permitindo que o corpo discente avance de forma contínua”, comenta Thaianny.
Santa Mariana (PR): Comunidade Presente
Em Santa Mariana (PR), o trabalho – coordenado na Editora pelo supervisor regional Fernando Corrêa – aconteceu nos dias 31 de março e 01º de abril. E envolveu cerca de 150 profissionais entre professores, gestores e equipe técnica da secretaria.
No caso dos docentes, participaram todos os da Educação Infantil (1 a 5), do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano) e dos componentes de Arte e Educação Física. Foram várias oficinas envolvendo temas relacionados aos segmentos atendidos em conexão com as coleções “Entrelinhas para Você” e “Caminhos e Vivências”.
No município também foi realizado um Encontro com Familiares (EFAM), que reuniu a comunidade para a palestra “Família Presente: cuidar, educar e proteger crianças em um mundo de relações, emoções e desafios”. A ação foi conduzida pela assessora pedagógica Jussara Moreschi, da Editora Opet.
Os EFAM são momentos essenciais das parcerias da Editora com os municípios. Eles materializam e fortalecem um princípio do trabalho – a aproximação entre a família e a escola pelo desenvolvimento integral das crianças e dos estudantes.
Xaxim (SC): Momentos Formativos Fundamentais
No município de Xaxim, a formação, que começou ontem e segue hoje (08 e 09 de abril), envolve 40 gestores e integrantes da equipe técnica da secretaria. Eles participam de oficinas com os temas “Educação integral e educação em tempo integral”, “Diversidade escolar e diversidade na escola”, “Práticas de atualização e escrita do PPP” e “Inteligência emocional na gestão da escola”.
Na rede municipal, o trabalho formativo com os professores aconteceu um pouco mais cedo, em fevereiro. E envolveu nada menos do que 290 professores – profissionais da Educação Infantil 4 e 5, do Ensino Fundamental Anos Iniciais (1º a 5º ano + Ciências, Arte e Educação Física) e Anos Finais (Língua Portuguesa e Língua Inglesa, Matemática, História, Geografia, Ensino Religioso, Educação Física, Ciências e Arte).
Na ocasião, a programação abrangeu várias oficinas, sempre com foco nos materiais didáticos – como as coleções “Entrelinhas para Você” e “Caminhos e Vivências”, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental – e em temas de interesse para o dia a dia dos professores na escola.
Na avaliação do secretário municipal de Educação de Xaxim, Gildomar Michelon, momentos formativos como os promovidos para professores e gestores são fundamentais. “Investir em capacitação é investir na qualidade do ensino e no futuro dos nossos alunos. Estamos sempre em busca de novas estratégias que possam contribuir com o desenvolvimento da nossa educação municipal.”
(*) – Fotos: Editora Opet
(**) – Com informações complementares (Xaxim) de “Lê Notícias”.
(*) – Todas as imagens que ilustram este artigoforam geradas por IA (Google Gemini. e Copilot)
Há coisa de dois anos ou pouco menos, computadores pessoais e smartphones foram alcançados por um serviço diferente. Softwares e aplicativos de inteligência artificial (IA) começaram a dar respostas, inclusive às nossas perguntas mais tolas, e apareceram nos serviços de busca.
E passaram a fazer desenhos segundo nossas orientações, melhorar fotos, traduzir, criar música, diagnosticar, escrever, ler mapas, montar aulas e muito mais. Algumas vezes, errando e “delirando”, mas, na média, com entregas que atendem as expectativas.
Uma transformação ainda mais surpreendente pelo inusitado de seu surgimento: de repente, a IA entrou na vida das pessoas comuns.
Uma entrada disruptiva, sem dúvida. Mas, será que a descoberta também foi disruptiva? Ou ela nasceu de um processo mais longo, com base – será – na Antiguidade?
Nesta edição da série #EducaçãoHumaniza, vamos investigar a origem da IA, dando uma passadinha, também, por seu futuro. Venha com a gente!
Mas afinal, o que é Inteligência Artificial?
Essa é uma boa pergunta para iniciar nossa jornada. Afinal, a tecnologia chegou às pessoas com o nome de Inteligência Artificial (IA) – e isto, definitivamente, humanizou nossa percepção da tecnologia.
Mas o que é, exatamente, inteligência? E o termo “artificial”, por que foi usado?
A palavra inteligência vem do latim intellegere e significa, literalmente, “ler entre” ou saber escolher entre diferentes objetos ou alternativas. Para a ciência, não existe um único conceito de inteligência – em nosso texto, porém, adotamos a definição científica geral de que ela é a capacidade de adquirir e aplicar conhecimentos, resolver problemas, adaptar-se a novas situações e aprender com a experiência.
E, em relação ao termo artificial (também de origem latina), a ideia é de que se trata de algo que se tornou possível graças a um artifício, ou seja, a uma habilidade ou técnica desenvolvida pelo homem. E que age fora do cérebro humano.
Assim, inteligência artificial pode ser entendida como a capacidade de adquirir e aplicar conhecimentos, resolver problemas, adaptar-se a novas situações e aprender com a experiência – algo eminentemente humano – instalada em um dispositivo construído por um ser humano.
A IA, então, não é apenas uma imitação ou emulação da comunicação humana, mas uma tecnologia que também gerencia conhecimentos e aprende com a própria experiência.
A partir daqui, podemos descobrir quando começou a jornada de “implantar inteligência na máquina”.
Sonhos, reflexões e estudos
Podemos dividir nossa investigação em dois aspectos que acabam se conectando.
Em um primeiro momento, temos o sonho humano, o desejo de construir autômatos e seres dotados de inteligência.
Ele aparecia nos mitos e no pensamento filosófico grego (como nos autômatos construídos pelo deus ferreiro Hefesto – imagem abaixo), entre os judeus medievais com o Golem (um autômato construído magicamente por rabinos) – e também na China, com aqueles que são considerados os primeiros robôs humanoides, descritos em textos clássicos.
Por muito tempo, foi só um sonho; nascido, porém, de mentes que também criariam a filosofia e, a partir dela, desenvolveram o pensamento científico, na Europa a partir do século XVII.
E é exatamente nesse período, com pensadores como René Descartes (1596-1650) e Gottfried Leibniz (1646-1716 – imagem), que têm início esforços no sentido de se “traduzir a razão” em termos matemáticos, com a lógica e o raciocínio mecânico (o mesmo que “dá vida” às calculadoras).
“Ombros de gigantes”
A referência, neste subtítulo, é a uma frase escrita por Isaac Newton (que ele emprestou de um pensador medieval, Bernardo de Chartres) para indicar que a ciência é cumulativa.
Os avanços na Matemática e na Ciência da Computação propiciados por pesquisadores como Leibniz, George Boole (1815–1864), Charles Babbage (1791–1871) e Ada Lovelace (1815–1852) serviram de base para que, no século XX, outros cientistas chegassem mais perto de um “pensamento computacional” e da arquitetura mais próxima do que conhecemos como IA. Esses trabalhos avançaram pela lógica simbólica (que possibilitou a invenção dos circuitos digitais), o cálculo universal (que permitiu as linguagens formais) e a programação.
A “máquina universal”
Em 1936, Alan Turing (1912–1954) formulou o conceito de “máquina universal”, um modelo que mostra que uma única máquina pode realizar qualquer tarefa computacional desde que seja programada corretamente. Esse conceito fundamenta os computadores de uso geral.
Pouco mais tarde (1945), John Von Neumann (1903-1957) estabeleceu o que conhecemos, hoje, como arquitetura de programa armazenado, que está em praticamente todos os computadores (e que prevê uma unidade central de processamento, CPU, memória e dispositivos de entrada/saída).
Em 1950, no artigo “Computing Machinery and Intelligence”, Turing (imagem) propôs um teste para avaliar se uma máquina poderia ser considerada “inteligente”. Esse teste, que se conecta diretamente à ideia de IA, estabelece o seguinte: “se um interrogador humano, em uma conversa escrita, não conseguir distinguir entre as respostas de um humano e de uma máquina, então podemos dizer que a máquina ‘pensa’”.
Nasce a IA
Cada contribuição foi essencial para a moldagem da IA que conhecemos.
Entre os anos 1960 e 1980, os estudos caminharam para a “IA simbólica”, que se baseava em lógica formal e representações simbólicas para simular o raciocínio humano em computadores e modelos matemáticos.
Em 1966, o programa de computador “ELIZA” ficou famoso por simular conversas com um psicoterapeuta; e os sistemas “especialistas” começaram a aplicar regras de conhecimento para resolver problemas de Medicina e Engenharia.
Nos anos 1980, os primeiros jogos digitais de RPG também “namoravam” com uma característica da IA: quando perguntavam ao usuário “O que devo fazer agora?” esperando uma resposta que permitisse avançar na jornada, simulavam a interação humana – uma característica essencial da IA. Essa característica, aliás, é chave no Teste de Turing.
O salto
Nos anos 1990 houve uma nova expansão. Se, até então, os sistemas que simulavam inteligência se baseavam em regras fixas e mais “duras”, eles começaram a incorporar dados estatísticos e algoritmos (equações) de aprendizado.
Com isso, ganharam flexibilidade de resposta – outra característica humanizante. Ao mesmo tempo, surgiram aplicações computacionais que focavam em reconhecimento de padrões, como os de escrita e voz.
Em 1997, um choque: pela primeira vez, um supercomputador – o Deep Blue, da IBM –, derrotou um superenxadrista, Garry Kasparov, mostrando a proximidade entre sua forma de “raciocinar” e o pensamento complexo humano.
Nos anos 2000, se unem ao processo (depois de um desenvolvimento de quase 50 anos) as redes neurais artificiais, modelos matemáticos inspirados no funcionamento do cérebro humano. Elas são compostas por camadas de neurônios artificiais (linhas de programa ou mesmo chips) que recebem dados, processam e transmitem resultados. Conectadas à IA, forneceram a “autonomia intelectual” que vemos hoje nesses sistemas.
Os sistemas, então, conseguiam falar e “sabiam pensar”.
Para a etapa seguinte, que estamos vivendo agora (mas que começou por volta do ano 2000), faltava apenas conhecimento, isto é, acesso a uma massa de dados (Big Data) que permitisse aos sistemas expandir a capacidade de processamento e construção de respostas.
Essa massa de dados está na internet, nos trilhões de informações que chegam a cada dia aos bancos de dados e que alimentam os algoritmos.
Aí, inclusive, reside a chave da chamada IA Generativa (vista em ferramentas como ChatGPT, MidJourney, Copilot e DeepSeek), em que não há uma simples organização-repetição de dados conhecidos, mas a gestão e a criação de novos conteúdos. É nesse estágio que nos encontramos agora.
Conclusão: esta IA é IA de verdade? E o que vem por aí?
Quando falamos de IA, não costumamos relacioná-la, por exemplo, com emoções ou subjetividade. E você sabe por quê? Porque esses elementos não estão lá! Eles são tão sofisticados – e emergem de uma estrutura tão complexa, o cérebro humano – que a ciência ainda não os alcançou.
Diante disso, é possível afirmar que a IA, hoje, é uma simulação extremamente bem-feita, e que pode ser cada vez mais refinada para uma mimese quase completa com os seres humanos. Não mais do que isso, porém.
E o que faltaria para a criação de uma inteligência artificial real, isto é, modulada por emoções e dotada de subjetividade? Que fosse indistinguível da inteligência humana, a ponto de perder o qualificativo “artificial”?
A ciência, é claro, trabalha nessa questão. Ainda não há meios, porém, para esse novo salto – o salto definitivo? – da IA. Dotar a máquina de uma noção de “Eu”, fazê-la sentir emoções (a chamada IA afetiva), permitir que tenha objetivos e vontade própria, que tenha um corpo físico capaz de fornecer informações que um sistema digital simplesmente não alcança.
Um avanço tão exponencial, porém, implicaria questões éticas sérias e reflexos profundos na vida das pessoas. Que exigiriam discussão prévia, normatização e acompanhamento cuidadoso pela sociedade. Esse debate, aliás, deveria começar agora, em escolas, universidades e governos.
Na sua opinião, a humanidade estaria pronta para essa nova etapa?
#EducaçãoHumaniza: o Brasil celebra no 19 de abril o Dia Nacional dos Povos Indígenas. Uma data de reflexão e de ação, que mobiliza muitas pessoas por um motivo essencial – o respeito à vida e à cultura dos povos originários. Mas, você sabe o que significa, de fato, o termo “indígena”? Ele vem do latim e significa, literalmente, “aquele que nasceu dentro”. Mais exatamente, aquelas pessoas, aqueles povos, que já estavam dentro de um território, que já viviam ali havia muito tempo, quando outros povos – conquistadores ou invasores – chegaram e impuseram sua presença e sua cultura. A ideia de povo “indígena” se aproxima, portanto, da ideia de povo “originário”, que é aquele que tem sua origem, seu berço, em uma dada região.
Onde vivem os povos indígenas? Quando pensamos em povos indígenas, normalmente pensamos nas Américas, bloco continental onde, de norte a sul, há centenas de etnias antiquíssimas, pré-colombianas, com suas culturas, línguas, conhecimentos, hábitos e territorialidades. No entanto, há milhares de povos indígenas em todos os continentes. Os aborígenes australianos, por exemplo, são indígenas, assim como os ainus do Japão (foto – crédito: Getty Images), os bosquímanos (ou San) do sul da África, os lapões (sámi) da Finlândia e até os bascos da Espanha. Mas, o que define a condição de indígena para além daquilo que já descobrimos ao conhecer o significado da palavra “indígena”?
Uma questão de território… e de poder A condição de indígena também está associada ao poder. Isso porque, na maioria absoluta dos casos ao longo da história, aqueles povos que “nasceram dentro” foram contatados, tiveram seus territórios invadidos por outro povo e acabaram submetidos pela força. E, muitas vezes, foram exterminados pela potência invasora. Os atuais povos indígenas, porém – aqueles que se declaram e são percebidos assim –, têm uma enorme força. A força de sua própria cultura, da resistência cultural, da luta por direitos e pela preservação da língua, dos mitos e crenças religiosas, do território. A força de sua presença, enfim, a despeito de todas as tentativas de apagamento.
Roma: um caso emblemático É interessante a gente pensar, por exemplo, que quando os romanos surgiram como civilização – em meados do século VIII a.C. (na foto abaixo, uma representação dos fundadores míticos de Roma, Rômulo e Remo, sendo amamentados por uma loba – foto: Wikipedia) –, eles estavam deixando a condição de povo originário, de povo indígena, para assumir aos poucos a posição de povo dominador, colonial ou imperial. A começar porque os romanos também nasceram da fusão de outros povos “anteriores” (latinos, gregos e etruscos), e também porque, ao se expandir como civilização, eles foram contatando, enfrentando e assimilando (ou destruindo) outros povos nos territórios da Europa.
Alguns exemplos de povos europeus conquistados ou assimilados pelos romanos: lusitanos, celtiberos, galaicos, vascões, gauleses (celtas), belgas, helvécios, bretões, icênicos, trinovantes e pictos. Esses povos viviam, todos, em territórios que atualmente formam parte dos países da Europa Ocidental (Portugal, Espanha, França, Países Baixos, Dinamarca, Alemanha e Grã-Bretanha).
E por que falar de Roma em um artigo sobre povos originários? Porque a mais poderosa civilização da Antiguidade no Ocidente foi a responsável por criar esse “modelo” imperial, de dominação, que inspirou todos os impérios que vieram na sequência – inclusive, as potências coloniais que a partir do século XVI contataram e conquistaram muitos territórios em todo o planeta. De certa maneira, Roma estabeleceu essa diferença entre “nós” – “civilizados” – e “eles” – “bárbaros”. A partir dessas percepções, podemos nos aproximar dos povos indígenas brasileiros.
Os povos originários do Brasil Em 1500, quando desembarcaram no Brasil oficialmente pela primeira vez, os portugueses foram recebidos pelos tupinambás, grupo da família linguística tupi-guarani que habitava uma extensa faixa do litoral entre a Bahia e São Paulo. Os tupinambás formavam uma comunidade poderosa. Eram, porém, apenas um entre centenas de povos.
Órgãos como o IBGE e a Empresa Municipal de Multimeios do Rio de Janeiro (Multi.Rio) estimam que, no século XVI, havia entre 1.200 e 1.500 povos indígenas vivendo no território que viria a formar o Brasil. Uma população de entre 2 milhões e 3,5 milhões de pessoas pertencentes a quatro grandes grupos etnolinguísticos – Tupi, Jê, Aruaque e Karib. Apenas para se ter uma ideia, na mesma época, Portugal possuía cerca de 1,5 milhão de pessoas. Os portugueses não vieram com a intenção de trocar, mas de conquistar. Isso, aliás, era típico daquele momento histórico europeu. Na arrancada da “Era das Navegações”, os reinos nascentes queriam acumular riquezas comprando e vendendo especiarias, abrindo rotas de comércio e conquistando os territórios de potenciais fornecedores. Tudo com o suporte da fé religiosa.
Encontro e choque A despeito de ter assinalado sua presença e “domínio” do território na viagem de Pedro Álvares Cabral – que, de fato, se dirigia à Índia –, os portugueses se estabeleceram mesmo no território brasileiro apenas por volta de 1530. E chegaram com a “receita” típica da era colonial: somando interesses econômicos, tecnologia militar superior (leia-se: pólvora, arcabuzes, navegação, mapas etc.), burocracia e o desejo de impor sua religião católica e seu modo de vida aos povos originários. De quebra e inadvertidamente, também trouxeram doenças como a varíola, o sarampo, a gripe, a peste bubônica, a malária e o tifo – que, em algumas regiões das Américas, acabaram dizimando populações inteiras.
Submissão e resistência Os portugueses necessitavam dos indígenas por uma série de razões, a começar porque estes povos conheciam o território; também por conta de seus conhecimentos sobre os alimentos da terra; e, é claro, por sua força de trabalho, tão necessária para a exploração econômica da terra. Para isso, porém, era preciso submetê-los, começando por sua conversão ao catolicismo. O processo, é claro, não foi bem-sucedido. Se, por um lado, a submissão desses povos gerou aos portugueses certas vantagens, por outro deu início a um processo de apagamento e marginalização que dura até hoje – e que é uma causa central da existência de um Dia Nacional dos Povos Indígenas em nosso país. As populações indígenas perderam seu território e viram seus mitos e crenças condenados; foram escravizadas e, muitas vezes, precisaram se deslocar em busca de regiões mais afastadas, onde não pudessem ser encontradas pelo invasor. Apenas para se ter uma ideia do alcance da dominação portuguesa, foi apenas em 1680 que o rei de Portugal determinou a proibição da escravização de indígenas; a prática, porém, permaneceu em várias regiões pelos séculos seguintes – e isto somente acontecia porque essas pessoas não eram vistas como cidadãs.
Um tempo de redescoberta e resgate Pelos séculos seguintes, na Colônia, Império e República, os indígenas brasileiros continuaram sendo vistos como não cidadãos – ou melhor, como pessoas que “não se encaixavam” no projeto de país desejado pelos grupos dominantes. Nas ondas de expansão do Estado brasileiro pelo território, nos séculos XIX e XX (até o início dos anos 1970), dezenas de povos foram contatados e dizimados em enfrentamentos ou por doenças trazidas pelos brancos. Muitas vezes, tendo sido assimilados, chegavam à sociedade como cidadãos de “segunda categoria”, assentados nas periferias e sem acesso a educação, saúde ou emprego decente. Sem acesso – e isto é algo fundamental – aos seus próprios valores culturais e crenças.
A situação começou a mudar (e sinalizamos, aqui, que ela ainda está longe do ideal) a partir de 1988, com a Constituição Federal, que reconheceu a cidadania dos povos originários, assim como seu direito à terra e à manutenção e promoção de sua cultura e língua e religião. Uma das mudanças principais, aliás, foi a mudança de posição em relação à ideia de “assimilacionismo”, que previa que esses povos deveriam ser integrados à sociedade brasileira. O direito, agora, passava a ser à diferença com proteção e respeito.
Um Brasil de muitos povos O Brasil comemora o Dia Nacional dos Povos Indígenas de 2026 com cerca de 1,7 milhão de pessoas que se identificam como indígenas, distribuídas em 391 etnias e falando 295 línguas (o que coloca o nosso país como campeão de diversidade idiomática). Os dados, extraídos do Censo de 2022, mostram um crescimento em relação a 2010, quando a pesquisa registrou 305 povos e 274 línguas.
Esse crescimento, aliás, é sintomático da valorização e, principalmente, da conscientização dos próprios indígenas e da sociedade a respeito de sua importância. Há, evidentemente, muito em que avançar, da questão da terra ao respeito às crenças religiosas. E, certamente, no cuidado com os chamados “povos isolados” – grupos indígenas que vivem em regiões da Amazônia e que não foram contatados pela sociedade brasileira. Segundo dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, são 29 grupos não contatados reconhecidos pelo Estado. Esse número, porém, pode chegar a 115, dependendo de outros estudos e validações.
Conclusão: todo valor dos povos indígenas Não existe cultura brasileira, não existe sociedade brasileira, sem a presença indígena. Que está nos valores, conhecimentos e saberes, artes, crenças, remédios, comidas (do milho ao açaí, da mandioca ao tacacá e mais) e, é claro, nos nomes dos lugares (30% dos municípios brasileiros têm nomes indígenas) e das pessoas. E que está, é claro, na nossa genética (ao menos 13% dos brasileiros, 27 milhões de pessoas, têm ancestralidade indígena). Só somos brasileiros, enfim, porque temos uma de nossas raízes nos povos indígenas. E isso merece ser lembrado, celebrado e cultivado com ações concretas dos governos – como, por exemplo, no reforço à proteção dos direitos indígenas – e da própria sociedade – reconhecendo as contribuições, afirmando a identidade, celebrando o ser indígena.
Com o início do ano letivo nas redes de ensino de todo o Brasil, a equipe pedagógica da Editora Opet intensifica sua atuação junto aos municípios parceiros. É tempo de “pé na estrada”, com palestras e formações pedagógicas que marcam o início do trabalho formativo de 2026 – um trabalho que segue pelas próximas semanas!
📍 No dia 19 de janeiro, com o apoio da Editora Opet, os educadores de Cocalinho (MT) participaram da palestra do psicanalista João Hilton, realizada durante a abertura da Semana Pedagógica do município. Com o tema “Comunicação Assertiva e Gerenciamento Emocional”, o encontro promoveu momentos de escuta, diálogo e reflexão sobre as relações no contexto educacional.
Em Cocalinho, a palestra foi com o psicanalista João Hilton. Foto: SME
📍Já no dia 26, foi a vez dos professores e gestores de Aquiraz (CE) receberem a coordenadora pedagógica da Editora Opet, Rúbia Cristina da Costa. Em sua fala, ela abordou o tema “Equidade, inovação e responsabilidade social na educação: desafios atuais para a promoção de aprendizagens significativas”, destacando o papel da escola na construção de práticas pedagógicas mais justas e alinhadas às demandas contemporâneas.
A coordenadora Rúbia Cristina na palestra e com a equipe da SME de Aquiraz.
📍No dia 28, durante a abertura da Semana Pedagógica de Varginha (MG), também com o apoio da Editora, os educadores participaram da palestra “Antes de tudo, um coração”, ministrada pelo cantor Rafinha Acústico – ele trouxe uma abordagem sensível e inspiradora sobre o cuidado com as emoções no ambiente escolar.
Em Varginha, os participantes da semana pedagógica participaram de uma palestra cultural com Rafinha Acústico. Foto: Divulgação.
📍As formações pedagógicas seguem nos dias 29 e 30 de janeiro nos municípios de Varginha e Andradas (MG), Figueirópolis do Oeste (MT) e São Sebastião da Amoreira (PR). Para Fernanda Gonçalves, coordenadora pedagógica regional da Editora Opet, esse momento inicial é fundamental para o desenvolvimento do trabalho ao longo do ano.
“Esse momento formativo inicial é estratégico para o trabalho de todo o ano. Nossa equipe planejou e se preparou muito para o trabalho com professores e gestores. Agora, colocamos a parceria em prática”, destaca.
E essa é apenas a primeira etapa da jornada formativa de 2026. Nas próximas semanas e ao longo de todo o ano, a Editora Opet seguirá acompanhando e apoiando seus municípios parceiros, reafirmando o compromisso com a formação docente e a qualidade da educação.
Multidões nas ruas, música, alegria, calor, brilho, criatividade e muito trabalho conjunto. Só quem vive no “país do Carnaval” tem a dimensão da importância sociocultural que a festa pode alcançar. Outros países, é claro, também festejam o Carnaval – uma celebração de origem europeia relacionada ao calendário da Igreja desde a Idade Média, há pelo menos mil anos –, mas só no Brasil houve essa fusão criativa de culturas com resultados tão brilhantes.
Nesta edição momesca de #EducaçãoHumaniza, vamos investigar as origens africanas do Carnaval brasileiro. Aqueça os tamborins… e venha com a gente!
A busca por uma origem
Quando buscamos as raízes africanas do Carnaval brasileiro, a pergunta a se fazer é: como se deu essa aproximação? Afinal, como apontamos acima, a festa está diretamente ligada ao catolicismo europeu. O Carnaval é uma “compensação prévia”, feita de excessos e alegria, antes da quaresma, período de observância de jejuns, abstinência e oração.
Dito isso, vem a pergunta: o que, afinal, os povos africanos – muitos dos quais, originalmente seguidores de religiões tradicionais próprias ou, então, muçulmanos – tinham a ver com esse calendário?
A resposta passa pela política colonial portuguesa, que somava a violência da escravização, a economia transatlântica e a imposição religiosa. Vamos saber mais.
Representação de Carnaval medieval por Pieter Bruegel, o Velho (1559). Fonte: Wikipedia.
Um drama em dois continentes
Só de imaginar o processo de escravização aplicado pelos portugueses (e por outros povos europeus) entre o século XVI e a primeira metade do século XIX, a gente já se arrepia. Não é caso, porém, de só imaginar, uma vez que ele está bem documentado em obras como “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, a trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes, e em “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre. É, sim, caso de indignar-se – e de tentar acrescentar uma camada extra de compreensão sobre a história do nosso país.
No tráfico transatlântico, mulheres, homens e crianças eram arrancados de sua terra natal na Costa Ocidental Africana (Golfo de Benin, Angola, Congo, Moçambique) –, sequestrados ou, então, vendidos como prisioneiros para mercadores de pessoas – e enviados ao Brasil.
Aqui, se sobrevivessem às condições duríssimas da travessia, eram revendidos e empregados na lavoura extensiva de culturas como a cana-de-açúcar e café (o chamado “eito”), atividades domésticas e obras públicas.
Nesse processo, em nome do controle por seus dominadores, eram convertidos à força ao catolicismo, religião oficial do império português. Tinham suas práticas religiosas originais proibidas, eram batizados com nomes cristãos (muitas vezes, os sobrenomes de seus “senhores” ou, então, de ordens religiosas) e eram obrigados a participar de cerimônias e rituais do calendário litúrgico. E é justamente esse o ponto de intersecção, o ponto de partida da relação entre o Carnaval e as culturas africanas.
Plano construtivo do navio negreiro inglês “Brooks” (séc. XIX). Fonte: Wikipedia.
Espaços de resistência
Movimentos de resistência à dominação passam, muitas vezes, pela percepção daqueles espaços em que é possível entrar e afirmar a própria identidade. Foi exatamente isso que aconteceu em relação ao Carnaval, festa popular que, por seu caráter disruptivo e irreverente, abriu espaço para manifestações culturais africanas. Uma festa de ruídos, bulha e inversão criativa, como bem observou o filósofo Mikhail Bakhtin, grande especialista no tema e em sua relação com a cultura.
Nesse momento tão interessante, tão peculiar, essas manifestações negras – que, por sua relação com a quaresma, se ligavam à “aceitação” da fé católica – surgiam e, aos poucos, também iam sendo incorporadas e transformadas em algo novo.
É nesse encontro entre repressão e criatividade, entre opressão e resistência, que surgem os batuques, os cortejos e os ritmos que moldaram o Carnaval brasileiro. Ou seriam “os Carnavais brasileiros”? É o que vamos ver agora.
“O Berimbau”, desenho de Jean-Baptiste Debret (1768-1848). Fonte: Wikipedia.
A presença negra nos muitos carnavais brasileiros
Antes de avançar para as contribuições africanas ao carnaval brasileiro, é interessante observar que o nosso país não possui apenas um carnaval, mas carnavais. A festa é uma só, mas com características culturais locais.
É bem verdade que, nas últimas décadas, essa diversidade cedeu terreno a uma festa mais uniforme, mediada pelos meios de comunicação; mesmo assim, em várias regiões ainda há festas bem características, bem tradicionais, como os afoxés da Bahia e os Papangus do Carnaval de Bezerros (Pernambuco).
Nesse contexto, as fontes culturais que formam o nosso carnaval – europeias, indígenas e africanas – podem aparecer com maior ou menor prevalência. A presença africana, porém, é sempre muito poderosa, em especial na sonoridade da celebração.
Papangus do Carnaval de Olinda, Pernambuco. Fonte: Wikipedia.
Do barulho aos ritmos carnavalescos
Bumbos, pratos, cornetas, matracas e gritos sempre fizeram parte do Carnaval. A “barulheira” era uma das características da celebração medieval, que se opunha justamente ao silêncio que deveria ser guardado a seguir, na Quaresma.
Foi esse o contexto de entrada dos instrumentos musicais africanos tradicionais; eles não vieram, porém, apenas como “máquinas de fazer barulho”, mas chegaram trazendo ritmos, marcações e um sentido musical, o que contribuiu de forma decisiva para a musicalidade do Carnaval brasileiro em todas as suas vertentes – dos afoxés ao “partido alto”, do frevo ao axé. Ou seja: boa parte da música carnavalesca tem, sim, suas raízes na África.
Tocadores de tambor de Gana, África Ocidental. Fonte: Wikipedia.
E que instrumentos africanos – ou herdeiros deles – encontramos no nosso Carnaval?
O mais célebre deles é o pandeiro, cuja origem não é apenas africana, mas que chegou a partir da África com os próprios escravizados ou, então, com os portugueses sob influência dos povos árabes do Norte da África.
Pandeiro. Fonte: Getty Images.
Outra “figurinha carimbada” é a cuíca, instrumento originalíssimo, comum no Carnaval carioca, herdeiro dos instrumentos africanos de fricção. Sua ideia é interessante: materiais distintos são friccionados junto a uma caixa de ressonância, gerando um “gemido” muito peculiar. E, com habilidade, o sambista consegue fazer o instrumento “falar”!
Protagonistas nas cerimônias das religiões de matriz africana, os atabaques – tambores altos em forma de pinhão – estão muito presentes nos blocos afro e afoxés, imprimindo uma cadência poderosa às músicas.
No caso do agogô, o próprio nome indica a origem do instrumento. É uma palavra de origem iorubá, de povos que vivem no oeste da África (Nigéria, Benin e Togo) e têm uma cultura musical muito rica – uma das grandes matrizes da nossa música carnavalesca. O agogô é um tipo de sino normalmente metálico que, quando percutido com uma haste, gera um som agudo que participa diretamente da marcação do ritmo.
Agogô. Fonte: Getty Images.
“Bum-bum, bum-bum, bum-bum…” – quando você está acompanhando um samba-enredo e percebe aqueles “batidões” lá no fundo, graves e poderosos, pode ter certeza de que está escutando um ou mais surdos em ação. Esses grandes tambores, cujas dimensões e profundidades podem variar, são essenciais no Carnaval brasileiro. E, é claro, têm origem nos tambores cerimoniais africanos.
Conclusão: a mão que toca o tambor
Instrumentos musicais não chegam sozinhos a uma festa e, evidentemente, também não tocam sozinhos. Por trás deles há pessoas e intencionalidade, conhecimentos prévios e cultura. Dito isso, podemos retomar uma ideia colocada alguns parágrafos acima, de que os povos africanos não apenas trouxeram instrumentos, mas colaboraram de forma decisiva para os ritmos e para a riqueza da música de carnaval – e, é claro, para a própria Música Popular Brasileira (MPB). Com inteligência sonora, criatividade e sensibilidade.
Não se pode esquecer, também, que a presença negra – africana e afro-brasileira – também colaborou e colabora muito para a estética do Carnaval do Brasil e para a sua temática. Nas danças, na corporeidade e nos enredos – sobre suas lutas, desafios, saudades, referências às culturas, religiões e religiosidades da África. E é justamente isso que faz do Carnaval Brasileiro um espetáculo de alcance global.
Para saber mais
Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), Salvador – O MUNCAB é um museu com ênfase na valorização de aspectos da cultura de matriz africana, destacando a sua influência sobre a cultura brasileira.
Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, São Paulo – Fundado em 2004, é uma instituição da Secretaria de Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. Localizado no Parque Ibirapuera, ocupa 12 mil m² e abriga um acervo com mais de 8 mil obras.
Museu do Samba, Rio de Janeiro – O Museu do Samba nasceu como Centro Cultural Cartola, fundado em 2001 pelos netos de Cartola e Dona Zica, lideranças da comunidade onde a instituição está sediada, na cidade do Rio de Janeiro, RJ. Desde 2007, é responsável pela salvaguarda das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro registradas como patrimônio imaterial pelo IPHAN.
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira – Único dicionário brasileiro dedicado exclusivamente à Música Popular Brasileira, iniciado em 1995 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), por meio do Departamento de Letras, e pela Editora Francisco Alves, com o apoio técnico do IES – Engenharia de Informática e Sistemas. Em 1999, o Ministério da Cultura retomou o projeto do Dicionário por meio da Fundação Biblioteca Nacional.
“Universidade”: quando a gente lê a palavra, pensa imediatamente em ensino superior. E é isso mesmo: ela é o lugar para a formação especializada em uma infinidade de áreas, da Geologia à Medicina, da TI à Pedagogia, e até em “zonas do conhecimento” que, neste exato momento, estão sendo imaginadas!
Universidade também é o lugar do encontro de pessoas para a troca e a construção de conhecimentos, de olho no desenvolvimento da civilização. Uma criação humana notável, que tem tudo a ver com a ideia de que a Educação Humaniza, mote da Editora Opet para 2026. Nesta edição da série #EducaçãoHumaniza, investigamos o surgimento das universidades. Venha com a gente!
O nome universidade tem a ver com universo?
A resposta é sim: universidade vem do termo latino universus, formado por unus (um) e versus (voltado para), gerando a ideia de algo “voltado para o todo”, capaz de abranger o conjunto das coisas.
Ou seja, universo é o conjunto de tudo o que existe e que é percebido assim, em conjunto, em suas conexões. E isso nos permite entender porque, na Astronomia, ele é usado para identificar o espaço sideral, a matéria, a energia e o tempo.
Esse é um começo instigante. Mas, como a palavra acabou identificando o que, hoje, conhecemos como universidade? A ideia de um lugar voltado a todos os saberes é boa e faz muito sentido. Para chegar mais perto de uma conexão com seu início histórico, porém, é preciso voltar no tempo, mais exatamente para a Idade Média ocidental, que é quando o termo começou a ser utilizado nesse sentido.
“Universitas magistrorum et scholarium”
Essa é a resposta! Na Europa, por volta do século XI – na passagem da Alta Idade Média para a Baixa Idade Média, em áreas de países como França, Itália e Alemanha – essa expressão era utilizada para identificar os primeiros grupos modernos ocidentais especializados em trocar e produzir conhecimentos.
“Universitas magistrorum et scholarium” significa, exatamente, o “conjunto (universitas) de professores (magistrorum) e estudantes (scholarium). Eureka!
Mas, voltemos a esses grupos. Por que eles se reuniam? E como eles conseguiam se manter?
A ideia de um grupo de especialistas transmitindo conhecimentos tem suas raízes na própria Baixa Idade Média – período que antecedeu a Idade Moderna – e no ressurgimento das cidades e do comércio.
Um começo “corporativo”
Ela tem tudo a ver com as corporações de ofício (de alfaiates, sapateiros, ferreiros, carpinteiros, pedreiros, marceneiros, padeiros, etc.), mas com um objeto um pouco diferente. Se as corporações se organizavam para fornecer conhecimentos técnicos e padrões para a produção de bens materiais e serviços, no caso das universidades o foco era outro. Mais exatamente, os do Direito, Medicina, Filosofia e Teologia – áreas de saberes “imateriais”, mas tremendamente relevantes para a vida das sociedades porque conectadas à organização e à gestão do Estado (naquele momento, os Estados modernos estavam começando a aparecer).
A arte da gestão
O valor do que esses grupos produziam, a importância que possuíam, nos permite entender quem os financiava. Vale lembrar que seus conhecimentos não geravam ganhos diretos como os produzidos pela venda de uma espada ou a construção de uma igreja; porém, eram muito importantes porque permitiam aos mandatários fortalecer a arrecadação de impostos, armar exércitos para financiar guerras, relacionar-se com as grandes casas bancárias (que já existiam), firmar acordos diplomáticos e de casamentos reais, encontrar dinheiro para os gastos pessoais dos reis, justificar estes gastos…
As universidades eram bancadas pelas próprias cidades (burgos), pelos reis que começavam a aparecer depois de um longo período de feudalismo, pela Igreja (que detinha a maior parte do conhecimento letrado no Ocidente) e, também, por pessoas de posses – burgueses e pequenos nobres – que, estrategicamente, queriam formar seus filhos para as “profissões do futuro” daquele momento.
Mas, quais foram as primeiras universidades?
Resposta na ponta da língua: as primeiras universidades são as de Bolonha, na Itália (fundada em 1088), Oxford, na Inglaterra (cerca de 1096), e Paris (cerca de 1150).
Ótimo! Só que não! Isso porque elas são as primeiras e, ao mesmo tempo, não são!
Como assim?! Elas foram, efetivamente, as primeiras, porém dentro dos limites da cristandade de então, ou seja, nos territórios do Velho Mundo de maioria cristã – mais exatamente, as Europas Ocidental e Central.
Dito isso, podemos chegar a universidades ainda mais antigas, que funcionam até hoje. São duas: as de Al-Qarawiyyin, situada em Fez, no Marrocos (fundada em 857), e Al-Azhar, no Cairo, Egito (fundação: 988).
O que essas instituições têm em comum? Elas nasceram em países de maioria islâmica. Na Idade Média, vale observar, boa parte dos conhecimentos antigos – gregos e latinos –, assim como novas investigações (nos campos que viriam a produzir a Química, a Biologia, a Astronomia e a Medicina), foram preservados e cultivados pelos povos islâmicos.
No caso dos conhecimentos religiosos, é interessante pontuar que, no Islã, eles se aproximam das leis civis; o que significa dizer que, neste contexto, as figuras e o papel do clérigo e do advogado muitas vezes se misturavam.
As universidades, porém, não ficaram só nos limites das ciências “imateriais”. É o que vamos ver a seguir.
Reis, fortalezas… conhecimento e poder
A chegada da Idade Moderna – marcada, em termos esquemáticos, pela conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos no ano de 1453 – trouxe à Europa o fim do feudalismo e o nascimento dos Estados Modernos.
Iam saindo de cena os feudos e entrando em cena os reinos (e, depois, os impérios). Com eles, nesse grande movimento, também vieram tecnologias decisivas como as da pólvora e da bússola, vindas da China e convertidas em grandes ferramentas de poder. Os interesses de comércio “destravaram” as navegações, aumentando muito seu alcance e gerando a Era Colonial ou “dos Impérios” (Portugal, Espanha, Reino Unido, França).
As universidades, então, se expandem para outras áreas bem mais “materiais”, como as de Engenharia de Fortificações, Metalurgia e Balística (para se alcançar o uso mais eficiente dos canhões), Astronomia e Cartografia.
Muitas vezes, inclusive, esses centros de ensino eram exclusivamente voltados a essas áreas, e se aproximavam de exércitos que também iam se profissionalizando. Três exemplos: a Academia Militar de Turim, Itália, fundada em 1678, a École du Génie de Mézières, nas Ardenas, França (de 1748), e a Real Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho, em Lisboa, Portugal (1790).
Da mesma forma, também é possível associar as antigas “universidades militares” às atuais universidades politécnicas, voltadas à formação de engenheiros e outros profissionais de ciências exatas. O saber técnico-militar abriu caminho para o saber científico-industrial. A primeira universidade politécnica, aliás, nasceu no calor da Revolução Francesa, na passagem para a Idade Contemporânea: estamos falando da École Polytechnique de Paris, fundada em 1794 para formar engenheiros e cientistas em áreas aplicadas.
O sucesso político, econômico e militar global das potências europeias ao longo de boa parte dos últimos quinhentos anos teve nas universidades (e no conhecimento gerado por elas) uma de suas bases. E, é claro, ajudou a espalhar o modelo de universidades pelo mundo – Américas, África, Ásia, Oceania.
E isso significa dizer que, em outros lugares, não existiam iniciativas semelhantes?
Sim e não!Sim, porque as “universidades” em um sentido europeu (e eurocentrado) nasceram, mesmo, na Europa, dos contextos e configurações próprias da região – como as decorrentes do poder da Igreja, do mundo feudal, do renascimento das cidades e do comércio etc. Esse modelo acabou prevalecendo em todo o mundo.
E não, porque outras civilizações possuíam demandas semelhantes por profissionais ligados à administração pública e às ciências aplicadas – e criaram suas próprias instituições.
O caso mais ilustrativo, aqui, é o da China, que viu sua primeira universidade – a de Beijing – ser fundada apenas no final do século XIX, em 1898. No entanto, a mesma China possuía academias imperiais desde, pelo menos, o século II. Essas instituições eram encarregadas de formar burocratas para a enorme máquina administrativa chinesa – e também se ocupavam de pesquisas científicas e temas filosóficos. Ou seja: cumpriam boa parte do que entenderíamos, deste lado do mundo, como universidade… só que eram muito mais antigas!
As primeiras universidades americanas
O poder colonial europeu nos séculos XVI-XVII gerou vastos impérios que tinham entre seus territórios toda a América, repartida entre Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Esse domínio incluiu, também, a fundação de escolas de ensino superior, muitas das quais eram diretamente relacionadas à Igreja. Enquanto os portugueses não autorizavam universidades fora da “metrópole” – o que forçava as elites das colônias a se formarem em Portugal, reforçando seus laços com o poder central –, espanhóis e ingleses não pensavam da mesma maneira.
No Brasil, as primeiras faculdades nasceram no início do século XIX, com a chegada da família imperial portuguesa, e as primeiras universidades surgiram a partir de então. Há quem aponte que a Escola Politécnica da UFRJ nasceu da antiga Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, fundada em 1792 pelos portugueses – o que situaria a instituição carioca, em definitivo, como a mais antiga do Brasil.
Conclusão: a universidade… universal!
Neste artigo, abordamos a etapa inicial das universidades, que se conecta a uma fantástica jornada humana relacionada ao conhecimento, à ciência, ao fim das superstições e ao poder político. Em 2026, segundo dados do QS World University Rankings, há entre 25 mil e 30 mil universidades em todo o mundo, sem contar faculdades isoladas e centros universitários. Esses números demonstram a relevância dessas instituições, que, a cada ano, formam incríveis 45 milhões de pessoas, segundo estimativa do UNESCO (os matriculados chegam a 264 milhões).
Em um momento de aceleração tecnológica e alta especialização dos conhecimentos, as universidades são forçadas a encarar grandes mudanças, como a de oferta de novos cursos ou, mesmo, de novos formatos de ensino que permitam, por exemplo, formações “híbridas”. E fazem isso com o mesmo espírito que as fundou – o de universitas, ou seja, de um olhar amplo sobre um todo vivo, complexo e vibrante.